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Nem um passo atrás: Rumo à Venezuela pós-Chávez

George Ciccariello-Maher Publicado em 12.03.2013

A Revolução Bolivariana não trata de Chávez. Chávez não é o centro, não é a força motriz, não é o gênio revolucionário individual do qual dependa todo o processo, ou no qual o processo encontre alguma inspiração quase divina. (...) Ou, como me disse um organizador de comunidades venezuelano, ‘Chávez não criou os movimentos; nós o criamos.’

6/3/2013, George Ciccariello-Maher*, Counterpunch
http://www.counterpunch.org/2013/03/06/preparing-for-a-post-chavez-venezuela/

Hugo Chávez está morto. A importância simbólica do presidente da Venezuela ultrapassou em muito sua presença física, garantindo um ponto de condensação em torno do qual as lutas sociais uniram-se e nutriram-se mutuamente. Assim continuará, inevitavelmente, a operar, mesmo muito tempo depois de sua morte. É o que cantam os versos do grande cantor popular revolucionário Ali Primera,[1] que andam hoje na ponta de língua de tantos:

Los que mueren por la vida
no pueden llamarse muertos

Revolucionário de pés descalços

Hugo Chávez foi menino pobre do interior de seu país, o que já diz muito do que se tem de saber sobre ele. Pés descalços, casa muito pobre, sol inclemente, colhendo lições as mais duras, e com forte dose de audácia, da experiência que é a vida de todos os dias naquela parte do planalto venezuelano, os llanos, que chega, de repente, aos picos das montanhas andinas.

Embora a política estivesse no solo que ali se pisa e em todas as suas interações sociais, o primeiro contato formal com a política revolucionária chegou-lhe pelo irmão mais velho, Adán, membro da então clandestina, antiga organização guerrilheira, Partido da Revolução Venezuelana (PRV). O PRV recusou-se intransigentemente a descer das montanhas no final dos anos 1960s, quando o Partido Comunista Venezuelano decidiu retirar-se da luta armada; o PRV, mais que qualquer outra organização, resistia então contra a ortodoxia marxiana, e escavava fundo nas tradições revolucionárias venezuelanas e latino-americanas que se abrigavam sob o grande guarda-chuva do Bolivarianismo.

Através de Adán, o Chávez mais jovem recebeu o legado dessa luta guerrilheira na Venezuela e de suas aspirações, um necessário, potente contrapeso à doutrina oficial que aprenderia na Academia Militar. Mas mesmo como soldado, Chávez já tinha alma irreverente de guerrilheiro; não demorou para começar a articular-se com outros oficiais radicais. Esse grupo de conspiradores seria chamado de MBR-200, Movimento Bolivariano Revolucionário, e não era grupo exclusivamente militar; logo estavam em contato muito próximo com os guerrilheiros comunistas revolucionários do PRV e outros.

A velha Venezuela

A velha Venezuela está morta. O ancien regime venezuelano se autoproclamava coeso e harmônico e manteve o mito até o fim. Para cientistas políticos, aí estaria um “excepcionalismo venezuelano”: um mar de instabilidade e ditadura que, na superfície, mantinha-se estável e ‘democrático’. Mas era harmonia que dependia de a maioria ser mantida invisível; e estabilidade montada mediante a incorporação e a neutralização de todo e qualquer movimento de oposição. Os que não aceitavam essa regra eram assassinados ou presos nos gulags dessa tal democracia ‘excepcional’.

Quando Hugo Chávez tentou pela primeira vez derrubar o governo de Carlos Andrés Pérez na Venezuela, em 1992, atacava uma democracia que, de democrática, só tinha o nome. Décadas de governo bipartidário criara um sistema absolutamente indiferente às necessidades da vasta maioria, e, com a crise econômica que se instalara nos anos 1980s, a “década perdida”, os pobres tendiam a rebelar-se; e a repressão era brutal. No que foi um, embora o mais espetacular de vários momentos de resistência, na rebelião de 1989, conhecida como o “Caracazo”,[2] morreram número não conhecido de pessoas, entre 300 e 3.000, massacradas quando Pérez ordenou aos militares que “restaurassem a ordem” nos barrios pobres que cercam Caracas e outras cidades venezuelanas.

Foi essa rebelião, mais que qualquer outra, e a repressão que veio depois dela, que levaram, pode-se dizer, que forçaram, Chávez e outros a tentar um golpe, com o apoio de movimentos revolucionários de base; e foi esse golpe, mais que qualquer outro evento, que levou Chávez à presidência, eleito, em 1998. Finalmente alguém levantava a cabeça. E quando Chávez disse, pela televisão nacional, que o golpe falhara “por ahora” [dessa vez, por enquanto], declarava, de fato, como Fidel Castro 40 anos antes, a sua firme certeza de que a história o absolveria.

A nova Venezuela

Em vários sentidos, foi o que aconteceu. Sob os governos de Chávez, a Venezuela tornou-se o país mais igual, mais igualitário em toda a América Latina, conforme o coeficiente Gini de distribuição de renda. A pobreza foi significativamente reduzida,[3] e a pobreza extrema quase erradicada. O analfabetismo foi eliminado e a educação é gratuita e acessível, até o nível universitário, para todos os venezuelanos, até para os mais pobres. A assistência à saúde é gratuita e universal. Apesar do catastrofismo da oposição venezuelana de da imprensa-empresa estrangeira, a economia é forte e atravessou a crise econômica global em condições muito melhores que muitos (que os EUA, sem sombra de dúvida).

Mais importante que essas melhorias nas condições de vida e bem-estar social da maioria dos venezuelanos, contudo, são as transformações políticas pelas quais passaram a Venezuela e seu povo, transformações que ainda não estão completadas e prosseguem. O governo Chávez jamais foi mero governo populista que dava benefícios em troco de votos: foi governo radicalmente democrático, que buscava, não raras vezes apesar de tendências autocráticas, dar poder ao povo para que agisse de baixo para cima, como verdadeiros “protagonistas” da história. Em conselhos comunitários, cooperativas, comunas e milícias populares, o governo venezuelano empoderou radicalmente os movimentos radicais de base, embora, sim, tenha havido resistências dentro da própria burocracia do Estado.

Mas essas não são realizações exclusivamente de Chávez. De fato, absolutamente não são realizações de Chávez. Desde muito antes de Chávez houve movimentos revolucionários que tentaram, falharam, tentaram novamente, o que gerou experiência, organizações e visões de país que, num certo momento, levaram Chávez até a presidência. Qualquer necrológio que fale de Chávez como alguma espécie de salvador, insulta o povo que tanto o amou, ao qual Chávez serviu e cujo comando obedeceu.

E há também esquerdistas mal informados que reclamam que Chávez não teria sido suficientemente revolucionário, que não teria avançado tão rapidamente quanto queriam rumo ao socialismo: que a revolução tem de ser total, de uma vez por todas. Outros, repetindo o que dizem os liberais, atacam-no porque seria autoritário, autocrático, antidemocrático. São críticas que não veem o ponto fundamental: que a revolução venezuelana não é Chávez.

Quem não for capaz de entender por que milhões de venezuelanos fazem hoje o seu luto, terá, desgraçadamente, abandonado qualquer projeto para entender o que realmente está acontecendo na Venezuela.

Democrata combativo

Mesmo na presidência, a persona campesina de Chávez encontrava modo de romper o verniz da liderança política: como quando, de repente, punha-se a cantar canções do altiplano, os cantos llaneros; ou usava parábolas populares, ou quando atacava aliados e opositores, sem medir palavras, na televisão. Pode-se também dizer que algum paradoxal autoritarismo democrático é herança dos pobres do interior do país: um intransigente respeito pelo povo, um igualitarismo ardente, que não aceitava ‘não’, quando se tratava de revolucionar o país. Embora  Chávez sempre tenha sonhado ser defensor em equipe da primeira liga de baseball [orig. pitcher], seu apelido de infância, Latigo [chicote], descreve melhor o seu modo de abordar a política e seu jogo de ‘bola rápida’.

Mas essa contradição não é específica de Chávez: a democracia direta e a democracia representativa raramente são aliadas gentis, como o nome talvez sugira, e um dos aparentes paradoxos da Revolução Bolivariana é que começa com empurrão firme, de cima para baixo, de modo a limpar o campo para a participação radicalmente democrática que venha de baixo para cima.

Aí está o que críticos de Chávez e da Revolução Bolivariana querem dizer, quando insistem em que Chavéz teria atropelado o sistema de ‘pesos e contrapesos’ democráticos; esses críticos não veem que essas limitações institucionais, por justificáveis que sejam, são, na maioria das vezes, bem pouco democráticas.

Resultado dessa incompreensão, os dois lados parecem falar línguas completamente diferentes: para uns, entre os quais parece incluir-se o deputado Republicano Ed Royce, que apostava em “dar adeus rápido” a Chávez, o presidente da Venezuela não passaria de ditador autoritário. São coisas que surpreendem os chavistas, que elegeram e reelegeram Chávez várias vezes, sempre escolhendo, deliberadamente, um processo cada vez mais radicalmente revolucionário; e os quais sempre apontavam a contradição entre o desejo democrático da maioria e os limites do mandato.

Muitos venezuelanos pobres também se surpreenderam quando tantos se ofenderam tanto por Chávez ter-se referido a George W. Bush como “o diabo” e depois, como “um macaco”. Os pobres não são muito atentos às regras de boas maneiras, quando discutem política; veem, intuitivamente, mas corretamente, que a política é o reino das posições firmes e das discussões fortes. Entenderam perfeitamente o que Bush disse, com seu “estão conosco ou estão contra nós” [e puseram-se contra].

A natureza maniqueísta da política venezuelana nos anos recentes é inegável, mas é útil reconhecer, com Frantz Fanon, que a divisão entre nós e eles, chavistas e escualidos (ou, mais recentemente, majunches), sempre foi mais um reflexo de uma realidade estrutural que ‘erro’ de Chávez ou da Revolução. Quando as elites venezuelanas puseram-se a chorar o desaparecimento da “harmonia” venezuelana, o que realmente lamentavam era que, de repente, gente pobre e de pele escura tivesse aparecido à vista de todos, se tornasse presença inevitável e assumisse o poder de governar como mecanismo útil para pressionar a favor de suas demandas.

Não há dúvidas de que Chávez serviu-se de algum maniqueísmo para mobilizar o povo para a luta, mas esse maniqueísmo também lhe veio por fenótipo, tanto quanto por razões políticas: mulato, de nariz largo e grandes orelhas, “com essa imagem, Chávez sacudiu de cima abaixo a fantasia da harmonia social (...). Sua imagem agita as mulheres ricas de Cuarimare.”[4]

Chávez e seus apoiadores foram racializados desde o início, em termos que causariam indignação em outros lugares: maçado, ‘negão’, gentalha, horda, gangue. O racismo explodiu durante o golpe de 2002, quando Chávez permaneceu deposto por menos de dois dias, o que, em vários sentidos obrigou-o a reconhecê-lo publicamente, num país que tanto celebrava a mestizaje e insistia em que, na Venezuela, não havia racismo. No final, o maniqueísmo tornou-se o mais importante motor para empurrar adiante o processo revolucionário, unindo o povo contra o inimigo comum e preparando-o para a luta que viria.

Cheguei a ter um encontro marcado para conhecer Hugo Chávez, mas ele cancelou no último momento. Algum imprevisto, uma combinação de preocupações de segurança e o incontrolável desejo de fazer tudo, ele mesmo. O mais próximo que estive dele, cerca de três metros, aconteceu, eu arrastado numa torrente de chavistas de camisas vermelhas, na Avenida Bolívar, em 2007. O presidente estava no alto de um caminhão. Ao vê-lo passar, fiz meu gesto chavista preferido: um soco na palma da mão, símbolo do que merece a oposição venezuelana. Como que para confirmar a centralidade das lutas, numa revolução que sobreviverá a ele, Chávez viu e repetiu o meu gesto.

A Revolução não retrocederá

E agora, o que acontecerá? Dentro de 30 dias, haverá eleições, para as quais Chávez indicou seu sucessor, Nicólas Maduro, que quase com certeza vencerá uma oposição que, parece, só se junta para ser novamente esquartejada. Mas o futuro de longo termo ainda não está escrito. Nada é inevitável, mas muitos venezuelanos pobres e radicalizados dirão, a quem lhes pergunte, que não darão ni un paso atras, nem um passo para trás. Que no volverán, não voltarão, ao passado. Sabem o que dizem e estão decididos.

Essa firme decisão revolucionária jamais dependeu exclusivamente da figura de Chávez. Como escrevi na introdução de meu próximo livro We created Chávez [Nós criamos Chávez]:[5]

“A Revolução Bolivariana não trata de Chávez. Chávez não é o centro, não é a força motriz, não é o gênio revolucionário individual do qual dependa todo o processo, ou no qual o processo encontre alguma inspiração quase divina. Parafraseando o grande teórico e historiador de Trinidad, C.L.R. James: Chávez, como o revolucionário haitiano Toussaint L’Ouverture, ‘não fez a revolução. Foi a revolução que fez’ Chávez. Ou, como me disse um organizador de comunidades venezuelano, ‘Chávez não criou os movimentos; nós o criamos.’”

Em 1959, Frantz Fanon declarou irreversível a Revolução Argeliana, apesar de o país só vir a  receber a independência formal três anos depois. Se se estuda com atenção a transformação da cultura argeliana durante o curso da luta e a criação de que Fanon chamou de uma “nova humanidade”, vê-se que Fanon não errou; estava ultrapassado o ponto depois do qual não havia retorno possível: “Um exército pode, a qualquer momento, reconquistar terreno perdido, mas como seria possível reimplantar o complexo de inferioridade, o desespero passado, na consciência do povo?”

Revoluções não vêm com garantia e não se supõe que a dialética histórica não possa ser curvada sobre ela mesma, espancada e sangrada. Trata-se, isso sim, de que, para que as forças da reação consigam fazê-lo, a tarefa não será fácil. O povo venezuelano levantou-se. É é difícil, é quase impossível, ordenar a um povo que afinal se pôs de pé, que ele volte a viver de joelhos.
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* George Ciccariello-Maher leciona teoria política na Universidade Drexel na Filadélfia. É autor de We Created Chávez: A People’s History of the Venezuelan Revolution [Nós criamos Chávez: História do Povo da Revolução Venezuelana] Duke University Press, Maio 2013. Recebe e-mails em [email protected]

[1] http://www.youtube.com/watch?v=dbKsD8PIwzE

[2] http://www.counterpunch.org/2007/03/03/the-fourth-world-war-started-in-venezuela/

[3] http://www.cepr.net/index.php/op-eds-&-columns/op-eds-&-columns/chavezs-legacy

[4] http://thinkingafricarhodesuniversity.blogspot.com.br/2011/08/jumpstarting-decolonial-engine-symbolic.html

[5] http://pt.scribd.com/doc/128885749/We-Created-Chavez-by-George-Ciccariello-Maher