Artigos

França: comunismo de nova geração

Walter Sorrentino Publicado em 12.02.2013

A título da análise política, nas condições da Europa, a esquerda venceu as eleições na França em 2012. Não é pouco dizer isso. Hollande, do Partido Socialista, assumiu o governo em meio a grandes esperanças. A Frente de Esquerda, com os comunistas, se agrupou na candidatura Melénchon com algo como 11% dos votos, e fez grandes progressos.

Mas, em termos de história política, não se pode esperar muito dos socialistas. Em meio a uma das maiores crises econômicas vividas, impera na Europa a política de austeridade, antes em torno de Merkel-Sarkozy, a dupla germano-francesa. Agora, apesar das contradições próprias aos socialistas, é muito difícil que Hollande possa se desfazer da política de austeridade. Como tudo – ou quase – está imbricado nessa política europeia, aguarda-se as eleições gerais da Alamanha, em outubro, que devem confirmar Angela Merkel no poder, até onde a vista alcança neste momento, e segundo a opinião geral. Ou seja, a austeridade, bem como a crise econômica, deverão permanecer anos mais nesta parte do Continente, que não tem há tempos a dianteira em termos de inovação e dinamismo econômico.

Na França, a redução de aposentadorias, as negociações salariais fora de contrato coletivo e a manutenção do déficit público abaixo de 3% do PIB estão, naturalmente, no cardápio do governo Hollande de 2013. Mas as eleições locais em 2014 também são desafios para os socialistas. Enquanto as coisas estão congeladas nesse ponto, a esquerda do partido socialista também não se move, embora naturalmente tenha muito o que temer.

Daí os comunistas, em seu 36º Congresso, terem feito sobretudo um repto ao povo e à esquerda. Não se entrincheirarão nos marcos de uma oposição blocada, apenas de resistência ou de antagonismo, mas emularão permanentemente aos trabalhadores e ao povo, bem como aos socialistas, para confirmar uma vontade real de um outro caminho, uma outra alternativa. O centro de tudo é a mudança, dar confiança ao povo em que a mudança é não só necessária, mas possível. Portanto, mais que tudo, convencer ao povo efetivamente dessa possibilidade.

Pierre Laurent, confirmado como secretário-geral do PCF em mais um mandato, apresentou aos delegados três bandeiras imediatas de luta – “três oportunidades para os socialistas do governo honrarem compromissos com seu eleitorado de esquerda”: uma anistia aos sindicalistas perseguidos pela Justiça francesa, adoção de lei sobre as bolsas e, com muita ênfase, o direito de voto aos estrangeiros. Era tudo que a militância queria ouvir no Congresso. Fora disso, é sustentar com coerência o que propuseram na campanha passada.

Em 2012 a vitória dos comunistas e da Frente de Esquerda foi cumulativa. Deu esperanças à esquerda. Em 2014, nas eleições locais, espera-se outros avanços, já que os comunistas são proporcionalmente mais fortes em nível dos municípios, historicamente. Com as lutas propostas, eles devem se fortalecer ainda mais, sobretudo se os socialistas não acompanharem esse sentimento crescente entre os franceses.

Daí o grande chamado de luta do Congresso: um congresso para união de forças, amplas forças dos trabalhadores, jovens e mulheres. União e fortalecimento com o Front de Gauche, em cada local de trabalho, de território, de frente de atuação. Pierre Laurent foi didático em fundamentar essa necessidade, mostrar como os comunistas, a par de fortalecer o partido, devem fortalecer a frente de esquerda, que tem outra institucionalidade, outras forças e outras culturas.

Foi propriamente um Congresso voltado para novo protagonismo político dos comunistas, de larga tradição combativa na França. Desta vez, com a marca de retomada dessa tradição. Fortíssimo foi o debate sobre o partido, o aprimoramento da militância e dos compromissos militantes, a construção da unidade em novo patamar no interior da vida partidária. Dizem que esse é o caminho e atualidade de um comunismo de nova geração. É sabido que no final dos anos 1990 e início de 2000, essa tradição havia esmorecido, fruto das orientações prevalecentes. Incrível a força da vida de base dos comunistas franceses. Com profundo senso histórico e total respeito democrático às opiniões no interior do partido, o que eles dizem com a alma é que a soberania no partido pertence a seus militantes, e se exprime antes de tudo nas organizações da base.

A militância presente ao 36º Congresso fez sentir o orgulho e novo ânimo que a direção atual infundiu ao partido com a orientação atualizada. Uma parte significativa do Congresso foi dedicada a aprimorar o Estatuto, elevando exigências para que se manifestem tendências no interior dos Congressos e fortalecendo a direção central, que vai reduzida substancialmente em sua composição. Mais que um “conselho”, uma direção de fato.

Enfim, uma retomada geral de valores com a marca da contemporaneidade que precisa marcar os comunistas de todo o mundo: a de um partido de massas, popular e de classe. Que, aliás, se fizeram presentes com uma delegação estrangeira de 160 pessoas, de mais de uma centena de países e de todos os continentes, mormente da África. O enorme sentimento internacionalista dos comunistas franceses mais uma vez se manifestou em toda a inteireza com as lutas de todo o mundo e especial apreço aos avanços progressistas e democráticos na América Latina.

A França pode se orgulhar sempre do PCF. E neste momento os comunistas de todos os continentes podem esperar muito dos comunistas franceses. Voilà.

*Walter Sorrentino é secretário nacional de Organização do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)