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Falcões do déficit em perigo

Paul Krugman Publicado em 28.01.2013

O discurso do presidente Barack Obama em sua segunda posse ofereceu muito que pode agradar aos progressistas. Houve a defesa vigorosa dos direitos dos gays; a defesa igualmente vigorosa da atuação do governo, e, em especial, da rede de segurança proporcionada pelo Medicare, Medicaid e Previdência Social.

Mas talvez a coisa mais animadora de tudo tenha sido o que Obama não disse: ele mal mencionou o deficit orçamentário.
O fato de Obama ter ignorado (propositalmente, é evidente) a obsessão favorita de Washington é apenas o sinal mais recente de que os pretensos falcões do deficit --mais bem descritos como críticos do déficit-- estão perdendo o controle sobre o discurso político. E isso é uma ótima coisa.

Por que os críticos do déficit perderam o controle? Eu sugeriria quatro razões interligadas.

Para começar, eles lançaram falsos alarmes em ocasiões demais. Eles já passaram três anos lançando avisos sobre a iminência de crise --se não reduzirmos o deficit agora, neste instante, vamos nos converter numa Grécia, numa Grécia!

Já se passaram quase dois anos, por exemplo, desde que Alan Simpson e Erskine Bowles declararam que deveríamos prever uma crise fiscal em --ahn-- dois anos.

Mas essa crise insiste em não acontecer. A economia ainda deprimida vem mantendo os juros em patamares baixos quase recordes, apesar de o governo tomar grandes valores emprestados, exatamente como os economistas keynesianos previram desde o começo. Assim, a credibilidade dos críticos orçamentários sofreu um golpe compreensível e merecido.

Em segundo lugar, tanto os deficits quanto os gastos públicos, como parcela do PIB, começaram a diminuir --mais uma vez, como previram aqueles que nunca aderiram à histeria em torno do déficit.

A verdade é que os deficits orçamentários dos últimos quatro anos foram principalmente uma consequência temporária da crise financeira, que mergulhou a economia numa queda livre --e que, portanto, levou tanto a receitas fiscais baixas e a um aumento nos benefícios de desemprego pagos e outras despesas do governo.

Deveria ter sido evidente que o deficit cairia assim que a economia se recuperasse. Mas foi difícil transmitir isso às pessoas enquanto a redução do deficit não começou a aparecer nos dados.

Agora ela está aparecendo --e previsões razoáveis, como a de Jan Hatzius, do Goldman Sachs, sugerem que até 2015 o déficit federal estará abaixo de 3% do PIB, um número pouco assustador.

Na realidade, foi bom que o deficit tenha podido subir à medida que a economia se desacelerava. Com os gastos dos consumidores caindo vertiginosamente em consequência do estouro da bolha imobiliária e das reduções nos gastos das famílias que tinham menos dinheiro disponível, a disposição do governo em continuar a gastar foi uma das principais razões graças às quais não vivemos um replay completo da Grande Depressão.

Isto me traz à terceira razão pela qual os críticos do deficit vêm perdendo influência: a doutrina do contra --a postura de que precisamos praticar austeridade fiscal mesmo numa economia deprimida-- fracassou inegavelmente, na prática.

Consideremos especialmente o caso do Reino Unido. Em 2010, quando o novo governo do primeiro-ministro David Cameron optou por uma política de austeridade, foi fartamente elogiado por muitas pessoas deste lado do Atlântico.

Por exemplo, o falecido David Broder exortou Obama a "dar uma de Cameron"; ele louvou Cameron especialmente por ter "ignorado os avisos dos economistas de que um remédio repentino e forte interromperia a recuperação econômica britânica e mergulharia o país de volta numa recessão". De fato, o remédio repentino e forte interrompeu a recuperação econômica britânica e mergulhou o país de volta numa recessão.

Neste ponto, portanto, está claro que o movimento dos críticos do deficit se baseou numa análise econômica equivocada. Mas não é só isso: fica claro que houve muita má-fé envolvida, quando os críticos tentaram explorar uma crise econômica (não fiscal) em nome de uma agenda política que não tinha nada a ver com deficits. E a transparência crescente dessa agenda é a quarta razão pela qual os críticos do deficit perderam sua influência.

Qual foi o fator que finalmente deixou tudo claro aqui? Terá sido o modo como a campanha eleitoral expôs o deputado Paul Ryan, que recebeu um prêmio por "responsabilidade fiscal" de três importantes organizações de críticos do deficit, como o embusteiro que ele sempre foi?

Terá sido a decisão de David Walker, cruzado confesso em favor dos orçamentos equilibrados, de endossar Mitt Romney e seus cortes de impostos para os ricos, cortes que desequilibrariam o Orçamento?

Ou terá sido a desfaçatez de grupos como Fix the Debt --basicamente, CEOs corporativos declarando que as pessoas deveriam ser forçadas a adiar sua aposentadoria, enquanto eles poderiam pagar impostos menores?

A resposta é provavelmente "todas as alternativas acima". Seja como for, uma era acabou. Os críticos mais conhecidos do deficit não podem mais contar com serem tratados como se sua sabedoria, probidade e espírito cívico fossem inquestionáveis. Mas que diferença isso vai fazer?

Infelizmente, o controle do Partido Republicano na Câmara significa que não vamos fazer o que deveríamos estar fazendo: gastar mais, e não menos, até a recuperação se completar. Mas o fato de a histeria em torno do déficit estar perdendo força significa que o presidente pode voltar sua atenção aos problemas reais. E isso é um passo na direção certa.

Fonte: Folha de S.Paulo