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Integração: a defesa regional em exame

Alfredo Jalife-Rahme Publicado em 19.07.2012

No encontro do XVIII Foro de São Paulo, em Caracas, o geopolitólogo Ronaldo Carmona, coordenador do grupo de trabalho temático sobre defesa e pesquisador da Universidade de São Paulo, havia me convidado ao seu debate, ao qual por falta de tempo não pude assistir.

 

Nova visão geoestratégica do Brasil, segundo Ronaldo Carmona (Universidade de São Paulo)

 

O documento matricial de Ronaldo Carmona aborda a “nova visão estratégica” que se desenvolve no Brasil, em particular desde o estabelecimento da Estratégia Nacional de Defesa (END) em 2008, que comporta três aspectos básicos:

Veja também:

Entrevista com Freddy Bernal, do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), sobre a defesa regional

“A definição de três áreas estratégicas de defesa: nuclear, espacial e cibernética.”

Em minha opinião, este item é insuficiente e pertence à etapa da Guerra Fria; hoje o enfoque deve ser também os itens de genoma, nanotecnologia e robótica (GNR), sem descuidar da segunda geração informática e, em especial, a ciberguerra e seus “supercomputadores”, do qual os Estados Unidos gozam de uma excelência dissuasiva.

“A delimitação geográfica mais nítida das áreas chaves de interesse estratégico: o Atlântico Sul (SisGAAz, submarino com propulsão nuclear) e a Amazônia, alvo de crescente ganância (Sisfron, deslocamento de unidades militares de norte a sul).”

Aqui acrescentaria a Antártida (tão abundante em matérias primas), cujo controle – na etapa da mudança climática e sua descongelação - definiria o domínio geopolítico nos dois lados do Atlântico Sul, o que afetaria os interesses dos blocos BRICS, BASIC (BRICS sem a Rússia) e IBSA (BRICS sem a Rússia e a China).

“O conceito de tomar como base da defesa do Brasil a identificação da nação – supersic! - com as forças armadas e das forças armadas com o nacional”.

Este conceito deve multiplicar-se em hipóteses de confrontação com uma potência muito superior (nota: serão Estados Unidos/OTAN/Israel?) no esquema de guerra assimétrica, o qual voltaria ao principal cenário, e cuja vitória só é possível em profunda fusão com o povo. Ronaldo Carmona argumenta que, “em grande medida, se trata de uma renovação do espírito de Guararapes, que forjou a nacionalidade brasileira”.

O significado simbólico e patriótico, quase espiritual, do “espírito de Guararapes”, segundo sua interpretação pelo portal do Exército brasileiro: “O nacionalismo do espírito de Guararapes é o nacionalismo racional, estratégico, seguro, traduzido na prática por uma Petrobrás, uma Transamazônica, o decreto das 200 milhas do mar territorial, nossa política de fretes marítimos e tantas outras realizações como Volta Redonda (a Cidade do Aço), marcos do progresso material do Brasil.”

Seria recomendável que os teólogos neoliberais defensores de um “espúrio modelo da Petrobrás” no México entendam seus alcances nacionalistas vinculados à geopolítica soberana e à grandeza do Brasil.

Justamente no meu encontro com Ronaldo Carmona em Caracas concordamos que o “espúrio modelo da Petrobrás” dos teólogos neoliberais arcaicos e submissos do México não tem nada a ver com o modelo original brasileiro em sua quintessência nacionalista que tem caricaturizado: uma desinformação a mais dos supostos filhos da Televisa.

A oficina de defesa que Ronaldo Carmona coordena exibe a “crescente preocupação das forças de esquerda em relação ao tema”, como “produto da tensão cada vez maior sobre assuntos como soberania e independência, quer dizer, a questão nacional, que excedem os temas clássicos da esquerda, como a luta pela justiça social, a democratização do Estado e o centro do desenvolvimento”.

Comenta que em datas recentes, “os quatro partidos de esquerda brasileiros que participam do governo da Dilma Rousseff realizaram um seminário em Brasília sobre a relação entre a política de defesa e o projeto nacional de desenvolvimento”, no qual participaram o ministro da Defesa, Celso Amorim, e o ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antonio Raupp.

Certamente, o anterior chanceler Celso Amorim, hoje ministro da Defesa - na minha opinião, um dos melhores geoestrategistas da América Latina (basta comparar com o foxiano Castañeda Gutman) - explica claramente as razões geopolíticas do êxito multipolar do Brasil (ver Bajo la Lupa, 18/1/12). Para mim, o Brasil de Lula/Dilma simboliza a essência da nova ordem multipolar.

Ronaldo Carmona tem muito claro o panorama geopolítico e estratégico global: “Vivemos em um cenário internacional cada vez mais próximo aos prognósticos das visões realistas e da teoria do imperialismo”, e argumenta que “existem três aspectos que exemplificam as nuvens carregadas na situação internacional”: 1) “redefinição estratégica dos Estados Unidos para estender sua hegemonia no tempo” com o alvo centrado na contenção da China (sic)”, o qual reabilita as três teses geopolíticas clássicas (Mahan, Mackinder e Spykman); 2) reabilitação do “imperialismo humanitário” (intervenção em guerras civis provocadas a partir do estrangeiro:  Líbia, Síria e Irã, e em países com baixo nível de coesão interna, inclusive na América do Sul, e 3) “controle dos recursos naturais escassos” que são abundantes na América do Sul.

Considera que a “situação na América do Sul, que busca maior coesão e unidade em seu pensamento geoestratégico, é bastante diferente (supersic!) da América Central e do Caribe, mais próximos aos Estados Unidos” na área de “seu” perímetro de segurança, o “Mediterrâneo americano”, como o denominou Mahan.

Aborda de forma especifica a América do Sul e sua “principal vulnerabilidade”: o “baixo nível de desenvolvimento”, que contrasta com sua enorme potencialidade, o qual defende um “projeto de integração regional”. Os Estados Unidos permitirão?

Acrescentaria outras duas vulnerabilidades para que floresça o desenvolvimento: finanças (controladas pela banca anglo-israelense) e tecnologia de ponta (Estados Unidos).
Destaca os avanços no “projeto de integração na defesa da América do Sul” e na Unasul e aponta ao novo pensamento estratégico comum do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) e suas duas teses: o “inimigo interno” (como abundam os cavalos de Tróia!) e “guerra do vizinho como inimigo”.

O CDS/Unasul prevê um cenário de ameaças ou busca de submissão por parte das potências centrais devido às características sul-americanas de possuir excedentes em bens estratégicos chaves em: a) energia (petróleo, gás, urânio, etc.), b) recursos minerais, inclusive estratégicos ou raros, c) excedentes aquíferos, d) biodiversidade, em especial a que está concentrada na Amazônia, e e) capacidade de produção de alimentos, e proteína animal e vegetal em geral.
Argumenta que a “integração comum Sul-Americana exige uma atitude de cooperação para dentro e de dissuasão para fora frente às ameaças de natureza extrarregional”.

Conclui que “a presença de forças extrarregionais na região sul-americana se converte na questão chave: Guiana ‘francesa’; bases militares ou acordos para franquear acesso à bases nacionais; presença marítima no Caribe e no Atlântico Sul”.

A América do Sul emergente poderá salvar o espírito de Guararapes?

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Fonte: www.alfredojalife.com
@AlfredoJalife
http://www.jornada.unam.mx/2012/07/18/opinion/018o1pol

Tradução: Mariana Moreto