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A saída da Grécia

Paulo Nogueira Batista Jr Publicado em 31.05.2012

Pensei em colocar um ponto de interrogação no título do artigo, mas a esta altura a cautela seria provavelmente excessiva. "Porta da rua, serventia da casa" - esta parece ser a atitude dominante na Alemanha e no resto do Norte da Europa. Depois das eleições gregas, com resultados abismais para os dois partidos tradicionais, autoridades europeias passaram a falar abertamente na saída da Grécia da área do euro.

O tema é de domínio público. Estou no Brasil no momento e em cada esquina me perguntam: "É para quando a saída da Grécia?". Em seu último relatório mensal, o Bundesbank, banco central alemão, avaliou que o impacto dessa saída seria substancial, porém "administrável". Os europeus, principalmente os alemães, vêm insistindo em declarar em alto e bom tom que a Grécia precisa cumprir, custe o que custar, doa a quem doer, o programa de ajustamento acordado com a "troika" (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI).

Tudo isso talvez seja mais uma tentativa de intimidar o eleitorado grego. As próximas eleições na Grécia estão previstas para o dia 17 de junho. Os eleitores gregos decidirão se vão ou não permitir uma aliança partidária que viabilize a continuação do programa de austeridade da troika. Com característica franqueza, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, decretou: "O povo grego precisa instalar um governo competente." As medidas de austeridade não foram estabelecidas para punir os gregos, esclareceu Schäuble, mas sim por serem necessárias.

Abro aqui um breve parêntese. Os alemães, povo extraordinário, têm uma qualidade inquestionável, entre diversas outras: detestam a hipocrisia. Passam longe do espírito de La Rochefoucauld, para quem a hipocrisia era "a homenagem do vício à virtude". Os alemães dizem o que pensam, custe o que custar, doa a quem doer. Já os ingleses, povo mais perigoso, transformaram a hipocrisia em segunda natureza - e munidos dessa ferramenta derrotaram os alemães em duas guerras mundiais.

Mas fecho o parêntese e volto à atualidade. Uma das vítimas da crise do euro - e do caminho que vem sendo seguido para tentar superá-la - tem sido a própria democracia na Europa, particularmente no seu "berço". Ouvir o povo virou palavrão. Em novembro passado, o ex-primeiro-ministro da Grécia George Papandreou anunciou a intenção de realizar um referendo sobre o programa econômico-financeiro. Foi um escândalo. Os mercados financeiros reagiram com violência. Os principais líderes europeus consideraram a ideia uma afronta, uma verdadeira irresponsabilidade. Consultar o povo, ora essa, onde já se viu? Em pouco tempo, Papandreou foi obrigado a renunciar.

O problema transcende a Grécia. Na Europa e em outros países desenvolvidos, portadores de democracias "maduras""e estáveis, o sistema político sofreu uma sensível degeneração.

Dizia Nelson Rodrigues 40 ou 50 anos atrás: "O dinheiro compra tudo - até amor verdadeiro." Se isso era verdade naquela época, hoje então... A política foi degradada pelo dinheiro de uma forma profunda e talvez sem precedentes. As urnas estão cada vez mais submetidas ao "Diktat" dos mercados. Uma agência de classificação de risco - dessas que cometeram e cometem erros fragorosos na avaliação dos países e instituições financeiras - tem mais influência do que dez parlamentos nacionais. Os regimes democráticos foram transfigurados em regimes plutocráticos.

A tragédia dos gregos é um capítulo dessa história maior. Veja, leitor, o simbolismo da situação da Grécia - país que deu origem ao que se entende por civilização ocidental. O destino da nação, o seu sistema social e político, as suas perspectivas de sobrevivência econômica, tudo, tudo depende do regime monetário - da decisão de continuar ou não no euro.

Triunfo do dinheiro.

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Fonte: O Globo