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A Celac e os Cem Anos de Cooperação

Beto Almeida Publicado em 06.12.2011

Muitas medidas já estão em andamento pavimentando o caminho para que nascesse a Celac: Mercosur, Alba, Unasur, Petrocaribe, Petrosul, Banco do Sul, Telesur etc. Tudo isto soma. Mas, a marca fundamental é que 33 estados decidem unir-se sem pedir licença aos EUA e projetam o futuro pela via de um caminho de independência.

A TV brasileira continua centralizando suas atenções na cobertura da crise do capitalismo na Europa, o que significa, na prática, sonegar ao povo brasileiro uma informação objetiva, necessária e de importância histórica para a humanidade como é a criação da CELAC (Comunidade dos Estados da América Latina e Caribe), ocorrida em 2 e 3 em Caracas. Assisti o evento em transmissão da Telesur, retransmitida aqui em Brasília pela TV Cidade Livre, o canal comunitário da capital.

A Celac nasce com desafios amplos, com uma pauta concreta e com um caminho já percorrido por meio das medidas que vêm sendo implementadas e que convergem para a integração de América Latina. A Celac nasce sem as presenças dos EUA e Canadá, países que apostam na desintegração e rapina, como prova o crime recente de demolição da Líbia.

Nada têm a fazer na Celac. Que fiquem com a moribunda OEA, um laboratório de maldades colonialistas que sempre operou a favor das ditaduras que marcaram em sangue e submissão a América Latina e o Caribe.

A Celac tem início buscando soluções soberanas, negociadas, democráticas para os grandes impasses da região, seja a questão colombiana, seja a saída para o mar para a Bolívia, ou integração de países mais frágeis como a Guiana ou Suriname e também uma solução para retirar o Haiti da imensa miséria em que ainda está imerso. Todas estas, e muitas outras, são questões amplamente complexas, mas com a Celac elas passam a ser encarada com base nos princípios da cooperação e da solidariedade que passam a marcar esta nova etapa da região.

Sem pedir licença

Muitas medidas já estão em andamento pavimentando o caminho para que nascesse a Celac: Mercosur, Alba, Unasur, Petrocaribe, Petrosul, Banco do Sul, Telesur etc. Tudo isto soma. Mas, a marca fundamental é que 33 estados decidem unir-se sem pedir licença aos EUA e projetam o futuro pela via de um caminho de independência, em variados graus, das intolerantes diretrizes que caracterizam, historicamente, as políticas estadunidenses para a região.

O nascimento da Celac já simboliza em si mesmo a necessidade de passar a um patamar mais elevado de planejamento, articulação e , sobretudo, cooperação entre os países latino-americanos e caribenhos porque os sinais emitidos pelo império, sobretudo com o aprofundamento de sua crise, seja nos EUA, seja na Europa do Euro, apontam para situações conflituosas mais complexas. Nada indica a revisão, pela Casa Branca, das pretensões imperialistas sobre áreas estratégicas em todo o mundo. Basta anotar que enquanto a Unasur forma seu Conselho de Defesa Sul Americano, os EUA ordenam a retomada da Quarta Frota, justo quando se revelam grandes riquezas petrolíferas sobre os mares do sul. Vale citar também o envolvimento direto dos EUA nas ações de desestabilização de governos populares como na Venezuela, na Bolívia, no Equador, em Honduras etc.

Exatamente porque a TV comercial brasileira ignora e sonega informação sobre esse grande acontecimento em nossa região - como paralelo, é como se a TV da Europa ignorasse o nascimento da Comunidade Européia - e também porque há privilégio editorial na cobertura da crise do capitalismo europeu, vale informar e dimensionar a importância de todas as medidas que já conduzem a uma era de mais integração, mais cooperação.

Desde que os bons ventos das lutas populares espantaram a poeira e o mofo do neoliberalismo que andava por aqui, criando com inteligência, rebeldia e coragem inúmeros governos populares e progressistas, as ações de estado se alteraram, as políticas externas, mas também as financeiras, monetárias, ou de saúde e de educação , registrando câmbios importantes, que, com a Celac, poderão se ampliar, se consolidar ou mesmo estimular, simplesmente, a incorporação de vários outros países num planejamento político no mínimo contraditório com os interesses dos EUA.

Distanciamento da agenda do Pentágono

Um exemplo disso, os significativos acordos firmados entre Venezuela e Colômbia, indicando uma tática que favorece algum tipo de distanciamento de Bogotá da função anterior, na época de Uribe, como um simples peão militaresco a ameaçar a Revolução Bolivariana. Outro exemplo é a Revolução Cidadã no Equador, ou o novo curso progressista inaugurado no Peru com a eleição de Umalla Hollanta. A Revolução Bolivariana necessita de tempo histórico para consolidar-se e uma hipótese de guerra com a Colômbia, que esteve eminente, era tudo o que interessaria ao Pentágono para encontrar pretextos intervencionistas na regiáo, como tem feito em muitos lados, seja no Iraque, no Afeganistão ou agora mais recentemente na Líbia. Já um setor da burguesia industrial colombiana vê a Venezuela como uma possibilidade de desafogo, um mercado comprador importante, sem contar que a pátria de Miranda não teve a oportunidade histórica de escapar da colonialista “maldição do petróleo”.

A Venezuela não teve sua Era Vargas. Só a partir de Hugo Chávez há um real processo de industrialização da Venezuela, do qual o Brasil participa com investimentos do BNDES que expandem a capacidade produtiva do país irmão. Em especial na realização de obras de infra-estrutura indispensáveis, além de contribuir, com a presença da Embrapa, a um processo de arrancada para uma economia agrícola, o que Venezuela não possuía antes, já que importava até alface dos EUA.

Nada disso tem sido adequadamente informado ao povo brasileiro. A política de integração regional dinamizada e priorizada por Lula, sob a operação de Amorim, foi sempre apresentada pela mídia colonizada brasileira como desperdício de dinheiro ou retórica itamarateca, com o que se ecoava os humores de Washington quanto ao novo quadro regional que acarretou em diminuição da presença comercial dos EUA. O que torna ainda mais incompreensível que a integração latino-americana não seja , até hoje, uma pauta jornalística importante para a TV Brasil, muito embora seja uma política sustentada pelos 63 milhões de votos que elegeram Dilma, e a Lula antes. Integração é prioridade de estado, mas a integração comunicativa não. No entanto a TV divulga com patética amplitude vida sexual de Berlusconi ou , agora, o caso das cuecas do Príncipe Charles.

Brasil participa da construção do maior porto do Caribe

Já os exemplos importantes não divulgados são inúmeros. Tomemos alguns. O Brasil participa atualmente da construção do estratégico porto de Mariel em Cuba. Será o maior porto do Caribe, dinamizando a economia regional. O Brasil participa com créditos do BNDES, enquanto que a escolha da construtora brasileira foi feita pelo governo de Cuba. Cuba não possui capacidade de engenharia nacional para realizar uma obra deste porte. E tampouco a Halliburton poderia substituir a construtora brasileira, né? A linha da Casa Branca é impedir que empresas de outros países violem o ilegal bloqueio a Cuba, o que vem sendo corretamente ignorado pelo Brasil. Aliás, em linha oposta, o Chanceler Amorim, na época, disse que o Brasil quer ser o primeiro parceiro comercial de Cuba.

O Brasil participa ainda de duas outras obras estratégicas ali na região: a construção da uma hidrelétrica no Haiti, construída pelo Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro, e a construção de uma usina hidrelétrica na Nicarágua. No caso do Haiti, são recursos públicos brasileiros repartidos exemplarmente pelo povo brasileiro com o sofrido povo haitiano, exemplo que as potências capitalistas não fazer. Há ainda um acordo entre Brasil-Cuba e Haiti para a construção de estruturas de saúde por lá, com investimentos da ordem de 80 milhões dólares por parte do Ministério da Saúde do Brasil, medida iniciada com Lula e confirmada agora por Dilma. Vale destacar que o Brasil só aceitou integrar a Missão da ONU no Haiti após ter recebido apoio unânime de todos os governos da região, inclusive de Cuba, Venezuela e Nicarágua. Fidel Castro chegou a declarar que prefere “soldados brasileiros a marines dos EUA no Haiti”.

Assim, de alguma forma, o Brasil se soma algo gigantesco esforço feito por Cuba, há anos, ao montar a Escola Latinoamericana de Medicina, para formar médicos para dezenas de países pobres, entre os eles o Haiti. Cuba divide uma parte de seus restritos recursos orçamentários com o Haiti e dezenas de outros povos. Aliás, até mesmo com países ricos, pois há 500 estudantes negros e pobres dos EUA estudando medicina em Cuba. Eles próprios, moradores em bairros negros, afirmam que ficassem nos EUA seriam fortes candidatos a serem recrutados pelo narcotráfico e que foi a Revolução Cubana que lhes deu a preciosa oportunidade de tornarem-se médicos. Ao ampliar suas parcerias com Cuba, o Brasil participa de alguma forma de esforço generoso. Mas há quem pense que isto é sub-imperialismo....

Europa e desintegração

Em linha diametralmente oposta, a Europa mergulha na crise para demolir os direitos sociais e trabalhistas. Cortes de salários de funcionários públicos já foram implementados em Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Mas, com todas estas medidas retrógadas, hipocritamente apresentadas como de economa, os países europeus não vacilaram em gastar fortunas na guerra de rapina imperialista contra a Líbia. E pior, com o apoio de partidos de esquerda, que identificaram num bombardeio incessante de 203 dias pela OTAN, causando mais de 200 mil mortos, uma suposta “ajuda humanitária”. A Grécia está demitindo em massa, cortando salários e direitos sociais, mas acaba de comprar, em meio à crise, 500 tanques de guerra dos EUA. A esquerda européia ficou na patética situação de apoiar a guerra imperialista contra Líbia promovida pelos governos contra os quais está protestando nas ruas.

Retrocesso político e social na Europa

Há duas semanas foi promulgada em Madri uma lei que pune cidadãos que tentem coletar comida das cestas de lixo espalhadas pela cidade. Nenhuma lei para evitar que seres humanos tenham que buscar comida no lixo. É uma lei que dá a medida da decadência européia, que vai se aprofundando numa linha completamente antagônica ao que está ocorrendo na América Latina, simbolizado pela criação da Celac. A criação da Comunidade Européia, o Tratado de Mastrich, representou o predomínio do capitalismo mais forte (Alemanha e França), sobre os demais países europeus. Enquanto aqui a realização de obras de infra-estrutura permitirá o desenvolvimento das forças produtivas, a CEE determinou o rebaixamento produtivo dos países mais débeis do capitalismo europeu.

A Grécia foi proibida de ultrapassar os limites impostos de fora para a produção naval ou para a produção de azeite. Limitou-se a produção agrícola de vários países mais fracos, sem esquecer que várias das repúblicas da ex-Yugoslávia, como a Slovenia e a Croácia, retrocederam à condição de semi-colônias da Alemanha. Até mesmo o funcionamento democrático formal dos países vem sendo anulado, com os novos governos sendo impostos pela oligarquia financeira européia, como ocorreu na Grécia e na Itália.

A solidariedade que vem do sul

Sinalizando uma linha contrária a este curso europeu de retrocesso político-social, Dilma Roussef, em seu discurso na Celac, deu um exemplo cristalino do caminho de cooperação e solidariedade que marca a região. Lembrou que a Unila - Universidade da Integração Latino-Americana - está à disposição dos países que integram o novo organismo. Ou seja, enquanto na Europa, africanos, latinos e asiáticos estão sendo cada vez mais escorraçados e ameaçados - (Jean Charles foi barbaramente executado no metrô de Londres pela polícia estatal) - aqui o Brasil recebe professores e estudantes do continente para uma ação concreta de integração por meio da educação , uma universidade pública, sustentada com recursos públicos brasileiros. Um investimento na integração.

Os “civilizados” países europeus investem na desintegração, na submissão do mais fraco, na guerra, na demolição do Estado do Bem Estar Social. Por aqui, recupera-se o valor do salário mínimo, o emprego formal, a licença maternidade amplia-se para 6 meses, as mamães recebem um ajuda do estado para amamentarem seus filhos no peito, um investimento estratégico do estado brasileiro em saúde das novas gerações. Que contraste!

Há quem reclame, aproveitando-se da escassa informação, de que apenas o Brasil entra com recursos e não recebe contra-partida alguma. Bastaria que a TV Brasil informasse que há uma integração que beneficia mutuamente os países, inclusive o Brasil. Exemplo: a hidrelétrica de Guri, no sul da Venezuela, fornece energia para Roraima, antes iluminada a diesel. Até recentemente, Manaus, para conectar-se por internet, precisava do uso de satélites, mas agora, com o acordo feito com a empresa estatal venezuelana CANTV, há internet por banda larga conectando o Amazonas e Roraima às demais regiões. Muita gente desdenhou quando Chávez propôs o Gasoduto do Sul integrando todo o continente, mas não desdenham do gasoduto que leva o gás russo para Itália, França, etc. Sem falar que o IPEA – que possui um Escritório em Caracas - foi solicitado pelo governo venezuelano a apresentar um programa de desenvolvimento regional integrando a Franja do Orenoco, onde provavelmente está um dos maiores mananciais de petróleo do mundo, ao sul da Venezuela e ao norte do Brasil, trazendo benefícios comuns às regiões dos dois países que padecem das desigualdades regionais.

Crescer todos

O Brasil também determinou uma nova repartição dos recursos de Itaipu Binacional com o Paraguai, representando um reforço orçamentário enorme para o país vizinho, que, por sua vez, alavancará a economia de toda a região, inclusive a indústria brasileira. Embora sócio da maior hidrelétrica do mundo, a capital do Paraguai ainda convive com cortes de eletricidade....

Entre Brasil e Argentina multiplicaram-se os acordos, já há operações de troca sem a presença do dólar, barateando custos, medidas que fazem parte de uma revisão estratégica que alcança até mesmo a política de defesa do Brasil, mudança simbolizada pela cooperação industrial bélica entre os dois países - impensável antes do Mercosur - e também pelo deslocamento de tropas das fronteiras do sul para as fronteiras do norte amazônico onde há enormes riquezas de nióbio, petróleo, urânio, permanentemente alvo de cobiça internacional. E como declaram militares brasileiros, só uma grande potência tecnológica e militar pode ameaçar a soberania da Amazônia Brasileira. Não será a Guiana, nem a Bolívia, nem a Colômbia, nem a Venezuela, muito menos o Suriname.....

Celac e Brics

A Celac nasce sob a égide da integração, da cooperação, do diálogo democrático e da solidariedade. É apenas o começo, ainda, ainda são alicerces em construção, mas, está reforçada a idéia mestra consubstanciada na política externa brasileira inaugurada no Governo Lula: precisamos crescer todos, reduzir as assimetrias. Na Europa, os mais ricos estão engolindo os mais pobres.

A Celac surge como necessidade histórica diante de um cenário internacional de crise crescente do capitalismo, como também são crescentes o intervencionismo militar e os orçamentos do setor bélico. Desafios de igual magnitude dos compromissos assumidos em Caracas cercam a Celac. Haverá obstáculos, barreiras, a mídia colonizada anuncia forte contrariedade dos centros imperiais contra este novo organismo. Uma coordenação sempre mais ampla dos países da Celac com os Brics, conformando uma frente única mundial antiimperialista, desponta-se como necessidade imprescindível diante da agressiva voracidade dos impérios em crise, mas que nem por isso deixando de emitir sinais ameaçadores.

A Celac começa a virar a página dos Cem Anos de Solidão que trouxeram sombra do atraso e dependência para a América Latina e Caribe - uma época de solidariedade proibida - para abrir a nova página, a dos Cem Anos de Cooperação e da Integração. Este novo livro recém começa a ser escrito.

 

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Jornalista, Membro da Junta Diretiva da Telesur.

Fonte: Carta Maior