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O PCdoB e o direito ao desenvolvimento da Palestina

Elias Jabbour, de Ramallah Publicado em 22.11.2011

Organizado em conjunto pelas fundações Rosa Luxemburgo e Fuad Nassar (ligada ao Partido do Povo Palestino – PPP), um interessante seminário internacional ocorreu em Ramallah, Palestina, neste final de semana, com o intuito de discutir experiências da esquerda em governos e buscar sínteses para um programa de desenvolvimento para o futuro Estado da Palestina.

Representamos o PCdoB com uma apresentação acerca da experiência brasileira recente de desenvolvimento e planejamento. O foco de nossa apresentação foi, além da história do processo de desenvolvimento e contrarrevolução neoliberal, a grande política social (e de desenvolvimento) implementada pelo governo Lula e sua continuidade no atual governo de Dilma Rousseff. A recepção à nossa intervenção foi muito interessante por conta do grande conhecimento – por intelectuais palestinos presentes – da situação econômica e social do nosso país.


O momento de emoção para a plateia foi imenso quando procedemos a leitura do poema de Adalberto Monteiro sobre o massacre de Sabra e Chatilla. Uma homenagem e tanto aos mártires do povo palestino.

Experiência internacional
 

Além de nós, na sessão internacional do seminário estiveram presentes o professor da Universidade de Moscou, Boris Kagarlitsky, o assessor do ministro das relações exteriores da China, Liu Youfa, o deputado sueco da Frente de Esquerda, Jacob Johnson e o egípcio Ibrahim Essawi.O evento termina amanhã com apresentações de intelectuais locais acerca da realidade econômica da Palestina, seus grandes problemas imediatos e possíveis soluções. O professor da Universidade de Moscou fez uma interessante explanação sobre o papel crescente dos movimentos sociais não somente na resistência ao neoliberalismo, mas também na construção de alternativas ante a presente crise financeira.

A ascensão e presente situação do welfare state sueco foi tema de apresentação do deputado Jacon Johnson. Este deputado lidera um amplo movimento nacional contra as tentativas de desmonte de todo um sistema público e coletivo de previdência social criado ainda na década de 1930. O egípcio Ibrahim Essawi dissertou sobre a brusca decadência da economia egípcia, fruto da feroz aplicação do modelo neoliberal e mesmo da queda do antigo governante. O economista chinês concentrou sua intervenção no papel das pequenas e médias empresas na China e a política governamental voltada para este importantíssimo segmento.


O drama econômico e social palestino

Todas as apresentações do segundo dia do seminário estiveram voltadas para a discussão da situação econômica e social interna do país. Existem experiências de cunho cooperativista em desenvolvimento, principalmente na produção de óleo de oliva. Existem, também, tentativas de montagem de um sistema de microcrédito baseada na experiência do Bangladesh e assim por diante. Todas estas experiências foram analisadas de forma minuciosa, porém o senso de realidade dos expositores falou muito mais alto – o que é auspicioso, diga-se de passagem.

Adentrando na própria problemática palestina em si, é interessante notar que a estratégia de todo movimento político da região está concentrada na constituição de um Estado. É uma bandeira comum a todas as forças políticas que atuam no curso da “grande política” palestina. Eis a questão estratégica. A novidade deste seminário esteve relacionada a uma tentativa política por parte do PPP de involucrar a questão do desenvolvimento econômico como parte, também, integrante da estratégia de construção de um Estado Nacional autônomo e independente.

A presente crise financeira apenas agravou a crise humanitária. Atualmente o nível de desemprego no país é de 32% (dados de agências externas, segundo alguns dos presentes este índice chega a quase 50%); Oficialmente o número de pessoas abaixo da linha da pobreza é de 43%, porém testemunhos de especialistas presentes no seminário dão conta de números comparáveis a certas regiões da África para a Palestina.  A autonomia é “zero” em matéria de política monetária e o orçamento só existe por conta de ajuda internacional. Seus produtos, em comparação aos produzidos em Israel (como o azeite de oliva) têm “preço final” sete vezes maior que o do país ocupante, inviabilizando o comércio externo. Este número é também expressão de uma geografia que não ajuda: o país não tem aeroportos próprios, nem acesso ao mar (o porto de Gaza foi destruído pelo colonizador).

O senso de realidade dos expositores apontou para a necessidade de plena continuidade da luta pelo Estado Nacional palestino. Mas chamam a atenção que a luta no terreno da propaganda é fundamental, pois poucos têm conhecimento – no mundo – deste drama humanitário sob os auspícios da “única democracia do Oriente Médio”.

Acordos militares entre Brasil e Israel: das palavras ao fato
 

Após a nossa intervenção e mesmo durante as conversas bilaterais com economistas e dirigentes do PPP, prevaleceu um clima de ampla camaradagem. Questões sobre a necessária contribuição econômica brasileira (via investimentos produtivos), a experiência dos governos Lula e Dilma Roussef e a experiência do PCdoB no governo e no parlamento foram discutidas de forma extensiva e fraterna. O respeito dos membros do PPP pelo PCdoB é perceptível no carinho como fomos tratados. João Amazonas fora lembrado, não por uma única vez, mas algumas vezes por conta de seu pronto apoio à causa palestina.

Porém existem questões de Estado que foram, de forma justa, levantadas. Uma delas é o agradecimento ao apoio incondicional do Brasil ao reconhecimento do Estado da Palestina. Porém, fomos interpelados acerca das relações militares entre Brasil e Israel em negócios que envolvem bilhões de dólares em armamentos e dispositivos de segurança. Algo constrangedor, diga-se passagem, para nosso governo, pois armas brasileiras são utilizadas por soldados israelenses. Dispositivos de segurança israelenses utilizados no sensoriamento do “Muro da Vergonha” estão sendo importados ao Brasil.

Enfim, das palavras ao fato existe uma distância nada razoável. O Brasil precisa dar maior conseqüência ao seu apoio político pelo reconhecimento do Estado da Palestina. E o PCdoB tem plena consciência disto.

 

Leia aqui a intervenção de Elias Jabbour