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Antonio Barros de Castro

Carlos Lessa Publicado em 24.08.2011

Dia 21 de agosto faleceu meu velho amigo Antonio Barros de Castro, em um acidente quase que único, pois um pedaço de laje caiu ferindo-o mortalmente sem que houvesse sequer a destruição do computador onde trabalhava a sua frente. Castro, professor com fala de mel, extremamente responsável, estava trabalhando no domingo, preparando a aula-conferência do dia seguinte, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre a China.

Professor Emérito, reverenciado ao longo de toda a vida como docente respeitoso da dignidade e do compromisso essencial do ser professor. Brasileiro com B maiúsculo, Castro sempre pensou o mundo, a economia e a sociedade a serviço do sonho de uma civilização brasileira, sem xenofobia, sem arrogância, sem prepotência, como uma outorga de nossas qualidades potenciais.

Poderia ocupar todas estas linhas falando sobre dimensões de Castro. O professor morreu trabalhando, procurando decifrar a esfinge chamada China. Corretamente, dedicou seus últimos tempos como pesquisador comprometido debruçando-se sobre o "milagre chinês". Como modesta e sincera homenagem, quero colocar algumas linhas sobre o "milagre chinês".

A filial da empresa americana na China dispõe de mão de obra treinada, educada, disciplinada pelo Estado
Mao Tse Tung dizia, no passado revolucionário, que era necessário aprender com o povo. Hoje, em tempos de neoliberalismo, é necessário apreender o fenômeno China. Do ponto de vista geopolítico, duas visões antagônicas e complementares têm epicentro na China. Por uma vertente, assume uma bipolaridade EUA-China, que amplia, em tese, o raio de manobra para a periferia do mundo; o ascenço econômico da China estaria reduzindo o peso relativo do império americano.

Por outra vertente, a parceria EUA-China concentra poder geopolítico. Do ponto de vista econômico, o G-7 não evolui para G-20, mas, sim, é um G-2, pois praticamente todas as grandes organizações empresariais americanas fincaram pé na China. A maioria das exportações manufaturadas chinesas é realizada por filiais americanas no território chinês. O imenso superávit comercial da China absorve, sem parar, títulos do Tesouro americano. As reservas chinesas contêm a maior parcela da dívida pública americana. A filial americana na China dispõe de mão de obra treinada, educada, disciplinada. O Estado chinês fornece a base das condições sociais (educação, saúde e segurança); regula a família chinesa (inclusive a autorização para ter filhos). O Estado chinês planeja e executa todos os investimentos de infraestrutura e aperfeiçoamento de cobertura social; está implantando um gigantesco programa de Ciência e Tecnologia. Essa moldura estatal, planejada, se abriu a uma "economia de mercado" (?!) que lhe permite exercer uma política econômica interna de assimilação do conhecimento mercantil das grandes empresas não-chinesas e uma política econômica externa sem as restrições do neoliberalismo.

O Estado chinês regula câmbio, controla com mão de ferro a atividade financeira a partir de seus bancos estatais e proibições contratuais e lança mão de qualquer artifício para reproduzir vantagens "victorianas". Por exemplo, compra o bom minério de ferro brasileiro e o combina com carvão metalúrgico chinês, que é barato (subsídio disfarçado) para a siderurgia chinesa e contingenciado para a exportação. Pela "economia de mercado" (?!) compra minério de ferro brasileiro, que invade o Mercosul convertido em aço chinês, deslocando o aço brasileiro. Aliás, pela fronteira institucional do Mercosul, o Brasil está importando ônibus chineses, apenas montados no Uruguai. A empresa chinesa, seus empresários e os chineses em geral obedecem e acatam as orientações governamentais, enquanto que a empresa brasileira responde a seus puros e privados apetites. Assim sendo, a Embraer instalou uma fábrica na China, para fornecer aviões regionais; os chineses já "clonaram" os aviões da Embraer e nós, brasileiros, criamos mais um competidor internacional. Em tempo, a China zerou encomendas internas à Embraer na China. A Vale do Rio Doce, para cultivar o apetite chinês pro seu minério de ferro e, ao mesmo tempo, comprar vagões ferroviários baratos, está importando da China milhares de composições. O Brasil faz com a China negócios com a China perdedores a longo prazo para o Brasil. Não cabe crítica à China e sim deploração à cega ideologia neoliberal e a um governo serventuário não da nação, mas sim de interesses empresariais privados brasileiros e alienígenas.

Não invejo a China. Tem uma gigantesca população, em sua maioria vivendo fora das cidades; suas reservas naturais são insuficientes em petróleo e alimentos; com o crescente consumo de água para a industrialização e a vida urbana em crescimento vertiginoso, os lençóis freáticos da China do norte estão no limite de sua exploração. A China, tal como a Inglaterra dos tempos da rainha Vitória, optou por ser potência industrial, tecnológica, diplomática e militar e dominar as fontes de commodities (em bom português: energia e produtos primários). Para tal, está conquistando e submetendo economicamente a África, lançando oleodutos e gasodutos para o coração petrolífero do mundo, penetrando de maneira assustadora no Cone Sul.

Acho que o Brasil deve estudar, como meu amigo Castro estava fazendo (aliás, os chineses estudaram a industrialização brasileira, principalmente o Plano de Metas) Creio que não devemos cair no conto da Bric; o Brasil é, estruturalmente, diferente da China, da Índia e da Rússia e eu agregaria: felizmente. Temos água, enorme potencial energético (hidrelétrico e pré-sal), sol, chuva e terra para produzir todos os alimentos. No presente, nossa principal carência é de um plano de desenvolvimento que, pela industrialização e prioridade de enfrentamento da questão social, torne efetivas as potencialidades nacionais.

Num mundo em crise, o Brasil-nação tem que ser afirmado, reafirmado e explicitado. É uma estupidez dizer que o Brasil é "celeiro do mundo", tendo fome interna. É outra estupidez não desenvolver os recursos hidrelétricos da Bacia Amazônica. É outra estupidez permitir que o real se valorize em relação ao dólar (os chineses mantêm o yuan alinhado com o dólar). É uma retórica fácil e imprudente afirmar que a crise de 2008 atingiria o Brasil como uma "marola"; é uma retórica fácil e imprudente afirmar que o Brasil está bem preparado para enfrentar as ressurgências inexoráveis de uma crise que se prolongará pelos próximos anos. Entendo que o governante não deve alarmar os atores sociais, mas não perdoo a imprudência de não constituir salvaguardas em uma espécie de confiança num inexistente "jeitinho brasileiro". Recordo que, quando da crise do petróleo dos anos 70, houve governante que afirmou ser "bendita"; o Brasil do ano 2000 seria uma grande potência. O discurso do Brasil na Bric, com o mundo se deslocando para a Bric é o equivalente à bendição dos anos 70. Eu - e certamente o professor Castro - jamais desejamos que o Brasil venha a ser um satélite da China potência ou da dualidade geopolítica EUA-China.

Castro, creia que um segmento importante dos economistas brasileiros percebem que isso é uma maldição. Esteja certo que você ajudou a criar imunidades intelectuais e morais.


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Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES.

Fonte: Valor Econômico