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Abalos financeiros assinalam o aprofundamento da crise do capitalismo

Fred Goldstein Publicado em 18.08.2011

Nos EUA acumulam-se os sinais de um novo aprofundamento da crise. O grande capital e os governos estaduais e federal não encontram saída que não seja mais desemprego, mais exploração, mais destruição de direitos sociais. Só a resposta organizada da enorme massa daqueles sobre quem recaem todos os sacrifícios poderá abrir a perspectiva de solução dos gravíssimos problemas sociais já existentes, e que tendem a agravar-se.

A desclassificação do crédito do governo estado-unidense e as reviravoltas na bolsa de valores deixam adivinhar mais cortes orçamentais, nova quebra económica e mais desemprego e dificuldades, a não ser que se desenvolva uma resistência forte e de massas.

Agora é a hora de lutar pelos empregos, de conter os despedimentos e encerramentos de empresas, de defender a Segurança Social e outros direitos sociais ameaçados, de rechaçar a intenção do patronato de descarregar a crise do sistema dos lucros sobre as costas dos trabalhadores.

A descida de qualificação dos títulos do tesouro, de AAA para AA+, pela agência de crédito Standard & Poor’s tem o significado de uma mensagem enviada por uma fracção de banqueiros e detentores de títulos no sentido de que querem cortes profundos na Segurança Social, Medicare e Medicaid.
Essa descida de qualificação tinha muito pouco a ver com a solvência imediata do governo estado-unidense. Tinha tudo a ver, isso sim, com cortes orçamentais. Era uma mensagem dirigida aos partidos políticos, dizendo que Wall Street não está satisfeita com o acordo acerca do tecto de endividamento que se compromete apenas com $2,1 milhões de milhões de dólares em cortes e é, na sua opinião, demasiado ligeiro nos cortes aos apoios sociais. A mensagem era sobretudo dirigida ao Partido Democrata, mas talvez fosse também dirigida ao Tea Party que, por ter agido de forma tão rígida tacticamente, não aproveitou em toda a extensão as concessões de Obama em relação aos apoios sociais.

Toda a desqualificação da S&P tem a ver com os cortes nos apoios sociais

Todas as agências de classificação são dependentes do que os bancos pagam pelos seus serviços. A agência S&P anunciou há alguns meses que queria um corte de $4 milhões de milhões de dólares no défice, e que os cortes nos direitos sociais eram a chave para alcançar esse objectivo. O porta-voz republicano na Câmara de Representantes, John Boehner, e o presidente Barack Obama estavam precisamente a trabalhar num acordo nesses termos quando este foi rompido pela ultra-direita e pelo Tea Party.

A S&P clarificou isso. Na declaração ao governo em que explicavam a sua intervenção, deixaram escrito que a baixa de qualificação era devida ao “pessimismo” acerca da perspectiva de cortes mais profundos.

Disseram que baixavam a qualificação da dívida de longo prazo dos EUA porque crêem que a “prolongada controvérsia sobre o aumento do tecto legal para o endividamento” indica que “um maior progresso no curto prazo na contenção da despesa pública será controverso, em especial no que diz respeito aos apoios sociais”. E disseram que aquilo que foi acordado entre o Congresso e a administração “fica aquém daquilo que consideram necessário” para alcançar a estabilidade financeira no decurso da próxima década.

Mais explicitamente, queixaram-se de que “o plano prevê apenas mudanças políticas de pequena escala no Medicara e poucas mudanças em outros direitos sociais” cuja “contenção” consideram “chave para a sustentabilidade fiscal a longo prazo”.

De forma a sublinhar que a desclassificação representava um ataque político contra direitos sociais, a declaração dizia que “consideramos que os atributos do crédito monetário do governo federal… que constituem a base para a classificação da dívida soberana, se mantém
sem alteração substancial”.

Por outras palavras, os financeiros que estão por detrás da S&P têm a preocupação de que, caso o governo continue a apoiar financeiramente as necessidades populares, poderá no futuro não restar dinheiro suficiente para pagar aos milionários e multimilionários banqueiros e detentores de títulos do Tesouro os seus juros

A luta sobre o tecto do endividamento – uma guerra política da ala direita

A crise do tecto do endividamento foi de natureza puramente política. As forças ultra-conservadoras do Tea Party e os conservadores de direita mais tradicionais do Partido Republicano formaram um bloco que trava uma guerra política visando reduzir, se não mesmo destruir, a Segurança Social, Medicare, Medicaid, e enfraquecer o presidente Obama. Como em qualquer guerra, a direita agiu a partir de uma posição de vantagem – o requisito legislativo de que o Congresso tem de aprovar o tecto de endividamento do governo. Tomaram como reféns os direitos sociais, ameaçando forçar o governo à suspensão de pagamentos até ao último momento.

A descida de qualificação pela Standard & Poor’s foi um acto de pura retaliação por ao acordo sobre o tecto de endividamento não ter ido suficientemente fundo nos cortes. A S&P incluiu a ameaça de futuras descidas caso os políticos não cortem mais.

A queda na bolsa de valores e o medo da “dupla quebra”

A subsequente queda no mercado bolsista, embora afectada pela baixa da qualificação, foi fundamentalmente uma reacção face à ameaça de uma “dupla quebra” ou de uma nova recessão na economia capitalista.

A desaceleração no crescimento da economia estado-unidense – uma taxa de crescimento de apenas 0,8% na primeira metade deste ano – significa que o desemprego aumentou, apesar do que as estatísticas oficiais dizem, afirmando que o desemprego diminuiu no mês de Julho de 9,2 para 9,1%.
Toda a gente sabe que isto constitui uma enorme subestimação do desemprego real. Há pelo menos 30 milhões de trabalhadores que ou estão sem emprego, ou estão sub-empregados, ou que simplesmente abandonaram qualquer actividade laboral.

Cortar o orçamento do governo na despesa para os serviços, apoios sociais, projectos públicos e outras áreas semelhantes apenas constitui promessa de que a crise económica nos EUA irá agravar-se.

Na Europa está a acelerar um processo idêntico. Grécia, Portugal e Irlanda estão já em processos de resgate pelo Banco Central Europeu e pelo FMI. Itália e Espanha, economias muito maiores, estão agora em crise. Os 90 maiores bancos na Europa possuem $425 milhares de milhões de dólares só em títulos do Tesouro italianos. Bancos dos EUA possuem $14,3 milhares de milhões.
Os banqueiros da Europa exigem gigantescos cortes orçamentais aos países endividados como preço do resgate. Isto fará recuar ainda mais as já desaceleradas economias da Europa.

O resgate de bancos e a austeridade agravam a crise económica

Os capitalistas e os seus políticos estão metidos numa contradição que não tem saída. Devido à crise económica as receitas do governo reduziram-se e o pagamento de juros aos banqueiros está em risco. Os governos têm vindo a intervir para garantir os pagamentos aos banqueiros.
Mas para garantir os juros aos banqueiros os governos têm de cortar nas suas despesas. Cortes na despesa pública significam que os trabalhadores ficam com menos dinheiro no bolso e a crise económica aprofunda-se.

Para garantir que os bancos embolsam, a crise económica tem de ser agravada pelas medidas de austeridade. Foi isto que esteve subjacente à luta em torno do tecto de endividamento. É isto que está subjacente à crise do endividamento europeu. A única saída para este ciclo vicioso está na luta contra os bancos e os detentores de títulos, e na defesa da prioridade ao emprego e às necessidades dos trabalhadores.

Uma nova vaga de despedimentos que surgisse em consequência de nova crise do capitalismo arriscaria o colapso. Uma crise financeira na Europa que alastre aos EUA pode despoletar uma crise global. Todos estes cálculos influenciaram o disparo na venda de acções nas bolsas de valores.

Do impasse capitalista à recessão

A classe trabalhadora deve levar a sério estes sinais de alerta.

No decurso dos últimos dois anos da dita “recuperação” o sistema capitalista tem permanecido numa situação de impasse. O colapso tem sido sustido por resgates maciços de bancos pelos governos e pela despesa pública em geral. Essa é a base da crise da dívida, não apenas nos EUA mas também na Europa e no Japão. Embora não tenha havido uma evolução recessiva, a economia capitalista apenas pode crescer à velocidade do caracol. Enquanto as grandes empresas têm vindo a acumular lucros, não houve a mínima alteração na situação de desemprego maciço.

Agora o sistema do lucro está em risco de escorregar do impasse para a recessão. O patronato investiu em tecnologia que reduz postos de trabalho. Aceleraram os ritmos de trabalho, forçaram os trabalhadores a trabalhar cada segundo da sua jornada, reduziram-lhes os horários até ao limite – forçando-os a trabalhar em tempo parcial ou ao trabalho temporário. A produção aumenta, mas com cada vez menos trabalhadores.

A economia está agora a aproximar-se do mesmo nível de PIB que existia antes da crise, mas com menos 10 milhões de trabalhadores em actividade. Isto significa que cada vez menos trabalhadores estão produzindo cada vez mais bens e serviços em cada vez menos tempo e por salários cada vez mais baixos. Tudo em nome do aumento dos lucros. O sistema do lucro está ele próprio em crise. E aos trabalhadores o que é pedido são sacrifícios. Não existe saída para esta contradição na base do sistema do lucro capitalista.

Apelar aos capitalistas a que criem empregos quando eles não necessitam de mais trabalhadores é uma ilusão. A única forma de neste momento criar mais emprego é o governo lançar um grande programa de emprego. O que é exactamente aquilo que o governo se recusa a fazer, dada a obsessão das instituições capitalistas em cortar na despesa e nos défices.

É necessária uma luta de massas pelo emprego

Comentadores capitalistas de todo o género estão horrorizados perante a perspectiva de surgimento de uma nova crise numa situação em que já existe um desemprego maciço de longa duração. A reclamação de um programa de emprego está a começar a ganhar embalagem mesmo entre vozes burguesas – desde o comentador Paul Krugman no NY Times até ao anfitrião do programa de noticias da MSNBC, Chris Matthews, e a muitos outros.

O presidente Obama tem estado virtualmente silencioso sobre um genuíno programa de empregos que possa começar a fazer voltar ao trabalho milhões de trabalhadores. E existe agora a ameaça de uma ainda maior crise de desemprego.

A direcção da AFL-CIO está a começar a movimentar-se em relação a esta questão e fez o apelo a manifestações por todo o país no início de Outubro. Outras forças estão a associar-se a esse apelo.

Trata-se de um passo positivo, apesar de tardio. Entretanto, a classe trabalhadora, a comunidade, os estudantes, todos aqueles que precisam de trabalho e são afectados directa ou indirectamente pelo desemprego têm necessidade de construir um movimento militante de base para dar combate a esta crise económica.

A mensagem da luta deve ser levada aos locais de trabalho, aos centros comunitários, às zonas de habitação, igrejas, esquinas e cruzamentos em todo o lado onde habitem trabalhadores, entre todas as raças e nacionalidades, de forma a construir um movimento combativo. Câmaras municipais, sedes de governos estaduais e do governo federal, as grandes corporações e empresas devem ser alvo da pressão e da cólera popular.

Os capitalistas estão sentados sobre milhões de milhões de dólares em dinheiro efectivo. Mas não dão emprego, estão a baixar os salários e estão a preparar-se para despedir mais trabalhadores se a desaceleração económica se converte em contracção em grande escala. Os bancos estão a obter dos governos, a todos os níveis, centenas de milhares de milhões de dólares em juros. O Pentágono e as corporações militares estão a receber milhares de milhões de dólares em pagamento por três guerras.

Estes fundos deveriam ser utilizados para programas de emprego e para as necessidades sociais, não para enriquecer ainda mais aqueles que são já super-ricos.
Os combatentes socialistas, militantes sindicais, activistas comunitários, organizadores progressistas e radicais devem urgentemente unir-se na construção de um movimento nacional de luta para combater a crise.

Nos anos 30 os Conselhos de Desemprego organizaram trabalhadores e moradores sob o slogan “Não morram de fome, Lutem!”. Tinham um programa para empregos e rendimentos. O movimento presente tem necessidade da mesma disposição combativa e determinada para organizar a luta na base.

É necessário ao movimento que se bata por vitórias a todos os níveis a que for possível. O seu programa incluirá sobretudo a luta pelo emprego, no quadro da pior crise do capitalismo desde 1930. Mas pode também incluir a defesa dos sindicatos, a negociação colectiva e os direitos dos trabalhadores indocumentados; pode lutar por comida, senhas de alimentação e alojamentos; pode opor-se aos encerramentos de empresas e aos despejos de moradores, aos cortes orçamentais e aos encerramentos de escolas. Por outras palavras, pode defender os interesses dos trabalhadores e dos oprimidos onde quer que eles estejam a ser atacados.

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 Publicado em Workers World, 10.08.2011

Fonte: ODiario.info