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Irlanda: reforço histórico da esquerda

Mariana Carneiro Publicado em 03.03.2011

As políticas neoliberais e a submissão do Fiánna Fail ao FMI levam à reconfiguração do Parlamento. As eleições de 25 de Fevereiro representam um reforço histórico da esquerda: o Sinn Féin elegeu 14 deputados, mais do triplo da legislatura anterior, e a recém-formada United Left Alliance conseguiu 5 lugares.

As eleições de 25 de Fevereiro representam um reforço histórico da esquerda: o Sinn Féin elegeu 14 deputados, mais do triplo da legislatura anterior, e a recém-formada United Left Alliance conseguiu 5 lugares. Foto do site da People Before Profit Alliance.
Do Esquerda.net

Após o partido dos Verdes ter anunciado que abandonava a coligação governamental em resultado da demissão de vários ministros do Fiánna Fail e da renúncia de Brian Cowen, então primeiro-ministro, da liderança deste partido, a presidente Mary McAleese dissolveu, a 1 de Fevereiro de 2011, o Parlamento irlandês e convocou eleições gerais para 25 de Fevereiro.

Das eleições legislativas resultou uma profunda reconfiguração do Parlamento. O Fine Gael, após os maus resultados da última década, substitui, pela primeira vez desde 1927, o Fianna Fáil como o maior partido no Parlamento, elegendo 76 deputados, contra os 20 do Fiánna Fail.

Tendo em conta que uma maioria absoluta tem que ser suportada por 110 lugares, e apesar de alguns membros do partido vencedor destas eleições já terem afirmado que estão a “explorar todas as alternativas”, na medida em que não querem desiludir os seus eleitores, na sua grande parte anteriores votantes do Fiánna Fail, ao que tudo indica, o Fine Gael, de centro-direita, irá formar uma coligação governamental com o Partido Trabalhista (Labour), o segundo partido mais votado, com 37 deputados, e que pertence ao centro-esquerda.

Paralelamente à derrota retumbante do Fiánna Fail, e ao desaparecimento do partido dos Verdes, seu parceiro de coligação, que não chegou aos dois por cento e perdeu os seis lugares que detinha, as eleições legislativas na Irlanda tiveram também outra peculiaridade - o reforço histórico da esquerda parlamentar: o Sinn Féin elegeu catorze deputados, mais do triplo da legislatura anterior, e a recém-formada United Left Alliance (ULA) conseguiu cinco lugares no Parlamento.

Em Dublin, a penalização da política neoliberal do Fiánna Fail e a ascensão das esquerdas irlandesas foram ainda mais flagrantes. Os resultados obtidos pelo Fiánna Fail desceram de 38 por cento para 12 por cento, tendo este partido alcançado apenas um deputado. O Sinn Féin e a ULA conseguem quatro lugares cada. Nesta cidade, as esquerdas - o Partido Trabalhista, a ULA e o Sinn Féin – mantém, pela primeira vez, uma clara maioria de 26 deputados.

Também pela primeira vez, um círculo eleitoral é unicamente representado pelas esquerdas. Em Dublin Noroeste, os três deputados pertencem ao Partido Trabalhista (2) e ao Sinn Féin (1). No círculo de Dublin Centro Sul quatro dos cinco lugares são ocupados pelas esquerdas (dois do Partido Trabalhista, um do Sinn Féin e um da ULA).

Os eleitores demonstraram nas urnas que não perdoam o Fiánna Fail por ter sacrificado o futuro da Irlanda ao salvar a banca dos seus próprios instintos predadores, assim como manifestaram o seu total repúdio pelas condições estipuladas no Memorando de Entendimento (ME) firmado entre a Irlanda e o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE). O ME contempla um plano de resgate até 2014 no valor de 85 mil milhões de euros e prevê que os juros cobrados pelo FMI ascendam a 5,7%.

Por outro lado, os irlandeses revelaram também não perdoar os efeitos dramáticos das medidas de austeridade implementadas, que têm vindo a acrescentar recessão à recessão, e que visam responder ao esforço de corte orçamental de 6 mil milhões de euros em 2011 exigido no ME.

Sinn Féin elege mais do triplo dos deputados da legislatura anterior

O Sinn Féin, partido nacionalista que na Irlanda do Norte é a segunda força política, e que apresentou quarenta e um candidatos nas últimas eleições, elegeu catorze deputados, mais do triplo da legislatura anterior.

O Sinn Féin soube capitalizar a onda de nacionalismo provocada pela rejeição do Memorando de Entendimento firmado entre a Irlanda e o FMI e a UE, e o descontentamento face às medidas de austeridade impostas pelo governo que incluem, entre outros, cortes nos apoios sociais, reduções salariais, despedimentos na função pública e diminuição da protecção no desemprego.

Gerry Adams, o líder do Sinn Féin que serviu na Câmara dos Comuns britânica como representante da Irlanda do Norte, e que vai agora assumir uma cadeira no Parlamento, considera que esta "eleição mostra que um número significativo de pessoas” apoia as posições do partido e que “o Sinn Féin será uma voz forte para representar os trabalhadores do país".

United Left Alliance

A United Left Alliance (ULA), cuja formação foi anunciada a 25 de Novembro de 2010, e que é constituída pela organização People Before Profite Alliance (PBPA), formada, na sua maioria, por membros do Socialist Workers Party , o Socialist Party (SP) e o Workers and Unemployed Action Group conseguiu eleger cinco dos seus vinte candidatos: Joan Collins com 8.459 votos; Richard Boyd Barrett, com 10.794 votos, Seamus Healy com 11.265 votos; Joe Higgins com 8.603 votos e Clare Daly com 11.172 votos.

Apesar de a ULA se ter apresentado como uma aliança eleitoral, os resultados obtidos nas eleições legislativas alimentam as expectativas no sentido de este novo movimento vir a transformar-se num verdadeiro partido de massas capaz de enfrentar os poderes estabelecidos.

A ULA concorreu às eleições tendo como base um programa generalista assente em sete pontos: o fim do resgate dos bancos; a taxação dos mais ricos; a implementação de um verdadeiro plano de criação de emprego; a defesa dos serviços públicos; a promoção da igualdade e da não discriminação; a protecção do meio ambiente; e a construção de uma verdadeira alternativa de esquerda na Irlanda e na Europa, que se oponha aos ditames da UE e das suas políticas neoliberais.

Durante a campanha, a ULA assumiu-se firmemente contra o plano de resgate estabelecido com o FMI e contra as medidas de austeridade implementadas pelo governo do Fiánna Fail e afirmou-se como uma alternativa aos partidos estabelecidos, bem como ao Sinn Féin e ao Labour, que, a seu ver, também aceitam o mercado capitalista e recusam descartar a hipótese de formar coligações com os partidos de direita.

Tanto o Fine Gail como o Partido Trabalhista fizeram campanha no sentido de desejarem renegociar as condições económicas impostas pelo FMI e pela UE. Enda Kenny, líder do Fine Gael, também anunciou que irá propor, nas próximas reuniões europeias de 10, 11, 14, 24 e 25 de Março, baixar a taxa de juro média de 5,7% do acordo com Bruxelas/FMI e implicar, no processo, os credores bancários da dívida, obrigando-os a suportar uma parte das perdas e não apenas os contribuintes. Apesar desta declaração de intenções, a ULA não acredita que esta mudança de cadeiras represente uma verdadeira alteração nas políticas económicas no país.

Joe Higgins, deputado do Socialist Party eleito pela ULA, afirmou que os cinco deputados eleitos por este movimento vão “trabalhar como uma oposição coerente e com princípios” e defendeu que “há uma necessidade de um novo partido à esquerda para os trabalhadores”, na medida em que existe actualmente “um vácuo enorme" na esfera política.

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Fonte: Esquerda.net