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Sarah Palin rompe o silêncio com frase antissemita

David Usborne Publicado em 14.01.2011

Sarah Palin, ex-governadora do Alaska, emitiu uma mensagem em vídeo, na qual acusa seus críticos de estarem lançando “libelos de sangue” contra ela. A afirmação só piorou a situação da líder direitista. A expressão “libelos de sangue” está associada a séculos de calúnia contra os judeus, acusando-os de utilizar o sangue de crianças cristãs em seus rituais. Um pretexto para a perseguição antissemita. Lideranças judaicas dos EUA criticaram o uso da expressão.

Era para ser um dia destinado à pregação e aos velórios dos assassinados no tiroteio do último fim de semana. Mas todos os vestígios de armistício político foram destruídos quando Sarah Palin, a ex-governadora do Alaska emitiu uma mensagem em vídeo, na qual acusa os seus críticos de estarem lançando “libelos de sangue” contra ela.

Num vídeo de oito minutos publicado na rede social Facebook, em que oscilava entre desafiante e defensiva, a principal figura do movimento de ultradireita Tea Party rompeu o silêncio que havia mantido durante vários dias e respondeu às acusações que dizem que sua retórica e as paixões que o Tea Party agita terminaram por impulsionar o homem que na matança do sábado passado assassinou seis pessoas e deixou a congressista Gabrielle Giffords gravemente ferida.

Palin, vista como possível candidata presidencial republicana para 2012, tem estado sob pressão para responder publicamente às críticas que recaíram sobre ela desde o ataque de Tucson. As acusações contra a líder ultradireitista estão vinculadas a um mapa que seu comitê de ação política exibiu, para os comícios do ano passado, no qual assinala como um alvo os distritos que tinham chefes democratas vulneráveis. Um desses distritos é o de Giffords.

A declaração de Palin poderia ter tido mais impacto do que teve o seu uso da expressão “libelos de sangue”, associada a séculos de calúnia contra os judeus, acusando-os de utilizar o sangue de crianças cristãs em seus rituais. Um pretexto para a perseguição antissemita. Alguns líderes judeus se queixaram do uso da expressão pela ex-governadora. A mesma representante Giffords, que está na CTI, professa essa religião.

No mesmo vídeo, a dirigente do Tea Party negou que existissem vínculos entre a tentativa de assassinato e a retórica incendiária que caracterizou o debate político para as eleições de 2010: “Escutei as notícias, em princípio, com desconcerto, depois com preocupação e agora com tristeza, pelas declarações irresponsáveis de gente que tenta repartir as culpas desse acontecimento terrível. Em questão de horas, os jornalistas e analistas não devem fabricar um libelo de sangue, que sirva somente para incitar o ódio e a violência que dizem condenar”, disparou.

“Há quem diga que se deve culpar a retórica política por esse ato depreciável, desse desequilibrado e criminoso aparentemente apolítico”, continuou Palin. “E denunciam que o debate político se incendiou mais recentemente. Mas quando foi menos acalorado? Naqueles dias calmos, em que figuras políticas resolviam suas peleias com pistolas de duelo?”, ironizou.

Por todos os atos violentos deveriam ser castigados unicamente seus autores, acrescentou. A ex-candidata a vice-presidente disse que pelo atentado como este de sábado não se pode responsabilizar coletivamente a toda a sociedade, aos que escutam a rádio nem aos que usam mapas como os que seus partidários confeccionaram, no qual Giffords aparecia assinalada como alvo.

Enquanto segue sendo questão de debate se é justo apontar o dedo para Palin, seu prestígio já está danificado e a última declaração parece não ter ajudado muito. “Em vez de baixar a retórica neste momento difícil, Sarah Palin escolheu acusar os outros, tratando de mostrar que esta tragédia incluía um libelo de sangue contra ela e outros”, protestou David Harris, presidente da Asociação Nacional Democrática Judaica. “Esses são termos atrozes para judeus estadunidenses”, concluiu.

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Fonte: Página/12 - The Independent, na Carta Maior


Tradução: Katarina Peixoto