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É hora do Brasil aproveitar a janela demográfica

Antonio Gil Publicado em 13.01.2011

Nos próximos 20 anos, os países emergentes ganharão cada vez mais visibilidade no cenário internacional. Um fator que fortalece politicamente as nações em desenvolvimento é o fato de contribuírem com mais de metade do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, a cada ano.

Um estudo recente da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre o fenômeno do deslocamento da riqueza aponta 2030 como o ano em que o fluxo econômico terá sido completamente reorientado e os países em desenvolvimento serão donos de 57% do PIB mundial.

Paralelamente ao processo de deslocamento da riqueza, o mundo também passa por uma mudança na distribuição de sua população economicamente ativa, favorecendo os emergentes em detrimento dos países mais desenvolvidos. Um exemplo é o Brasil, que atravessa a chamada janela de oportunidade demográfica, fenômeno decorrente da mudança da estrutura etária de sua pirâmide populacional. Enquanto os países desenvolvidos estão preocupados com o envelhecimento de suas populações e o consequente aumento da demanda por serviços previdenciários, o Brasil dispõe de maior parte de sua população em idade economicamente ativa e fervilha de jovens ávidos por qualificação e inserção profissional.

Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, entre 2010 e 2020, a nação concentrará entre 67% e 70% de sua população em idades de 15 a 64 anos. A porcentagem de pessoas com idades entre 15 e 24 anos, consideradas ingressantes na vida laboral pelo critério do IBGE, será de 17,41% em 2010 e 16,34% em 2020. Esse contingente de mão de obra será da ordem de 33,64 milhões em 2010 e 33,85 milhões em 2020, considerando a população total do país em 193 milhões aproximadamente em 2010 e 207 milhões em 2020.

Agora é, portanto, a hora de se investir em atividades que favoreçam a inserção de um grande contingente populacional no mercado de trabalho e, mais ainda, que garantam que essa inserção ocorra por meio da produção de bens e serviços de maior valor agregado, capazes de alçar o país a um patamar superior na escala da competitividade.

Uma opção extremamente oportuna para assegurar o aproveitamento desta janela demográfica é a Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), que é caracterizada por sua alta capacidade de criar empregos e pagar bons salários. Hoje, o setor de TIC emprega 1,7 milhão de profissionais de níveis médio e superior e as empresas do setor pagam salários superiores em mais do dobro aos da média nacional. Só o mercado mundial de exportação de software e serviços de TI deverá subir dos pouco mais de US$ 100 bilhões de hoje para US$ 500 bilhões em 2020. Não há país emergente que não esteja de olho nesse mercado.

Além disso, a utilização da indústria de TI como fator estratégico para a economia favorece a implantação de uma cultura tecnológica nacional, que tende a acelerar o processo de desenvolvimento. O estudo da OCDE a respeito do deslocamento da riqueza atribui ao quociente tecnológico das nações sua rapidez ou lentidão em ocupar uma posição mais representativa no cenário internacional.

Um artigo recente do pesquisador Navi Radjou, da Universidade de Cambridge, observa que o processo de inovação policêntrica, que consiste na transferência dos centros de inovação dos países desenvolvidos para os mercados emergentes, inicia-se pelo deslocamento de algumas atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) para mercados prestadores de serviços tecnológicos a países desenvolvidos e culmina com a mudança absoluta das unidades de P&D para esses países. Segundo ele, 40% das maiores companhias do mundo estão no estágio inicial do processo de inovação policêntrica e menos de 1% encontra-se no estágio final. Definitivamente, a hora de o Brasil marcar posição no mercado global de Tecnologia da Informação é esta.

O posicionamento do país como player significativo em exportações de software e serviços (IT offshore outsourcing) é uma oportunidade que se abre para garantir a participação na revolução tecnológica mundial e o refinamento da qualidade do desenvolvimento nacional por meio de uma indústria de base tecnológica. Este ano o país deverá vender ao exterior cerca de US$ 4 bilhões em software e serviços de TI, ante US$ 3 bilhões no ano passado. Em 2020, o volume dessas exportações poderá chegar a US$ 20 bilhões.

A demanda que impele esse crescimento é oriunda tanto do mercado interno como das profundas transformações impulsionadas pela economia digital em todo o mundo. A TIC permeia todas as demais indústrias e cada vez mais demonstra sua utilidade em áreas diversas como a da saúde, no processo de diagnóstico remoto; da educação, por meio dos sistemas de ensino à distância; do ambiente, por meio de instrumentos de medição de emissões de gases de efeito estufa e de controle diversos; e da "bancarização", permitindo a inclusão de milhares de pessoas nos processos financeiros formais em todo o mundo.

Apostar em TI implica criar programas de investimentos dirigidos à formação de mão de obra especializada e à inovação nas empresas, o que significa investimento em conhecimento e em sofisticação. Aliada à demografia generosa e ao fenômeno do deslocamento de riqueza, esta estratégia alçará o Brasil à posição de quarto maior mercado de TI do mundo, tornado-se um dos lideres do gigantesco mercado de tecnologia do planeta, ao lado da Índia e da China.

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Antonio Gil é graduado em Engenharia de Produção pelo ITA e presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom)

Fonte: Valor Econômico