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A Igreja praticante da pedofilia e do preservativo

Marcos Roitman Rosenmann Publicado em 13.12.2010

Como nas guerras de posição, para avançar e romper trincheiras, lançar bombas de fumaça pode ser muitas vezes uma excelente estratégia para desviar a atenção do inimigo. Todos os olhares estão concentrados em uma nuvem espessa, numa cortina protetora, por trás da qual se espera que apareça um exército bem equipado.

Esta manobra está cheia de variantes, cuja referência é a surpresa. Distrair e confundir. Transferida para a política, temos um efeito homólogo com as chamadas “bombas de informação”. Seus efeitos são imediatos, e a notícia, não interessa do que se trata, torna-se o numero um do ranking. Rádios, televisões e imprensa escrita se preparam para dar uma ampla cobertura. Por alguns dias não há outro assunto nas conversas. Entretanto, outros acontecimentos cuja repercussão pode ser infinitamente mais grave ou importante passaram despercebidos graças à eficácia da isca. Em outras palavras, jogaram o anzol. Ninguém escapa a seus encantos, que são feitos ainda mais atraentes por este estratagema.

Casamentos, assassinatos, prisões, assaltos, eventos esportivos entre outros se tornam carniça para a sociedade de espetáculo. No espaço político, essa bomba informativa adota a forma de uma declaração. Seu objetivo é o mesmo, burlar e despistar.

As opiniões do Papa sobre o uso de preservativos reproduzidas em um livro em forma de entrevista foram lançadas simultaneamente com as conclusões do conclave cardinalístico sobre pedofilia e abusos sexuais cometidos por membros da igreja. As conclusões apenas se comentam ou caem em um saco furado. Uma boa cortina de fumaça.

É um clichê ressaltar o caráter católico das sociedades ocidentais. Não podemos afirmar que esta afirmação é fruto da pressão da mídia, dos costumes ou um ato consciente. De qualquer forma o Estado do Vaticano permanece como representante institucional do reino de Deus na Terra, tem as chaves e decide quem será salvo e quem vai para o inferno. Com esta finalidade, excomunga, santifica ou declara guerra aos infiéis. Além disso, declara ser a religião com mais seguidores do planeta. Para confirmar sua hegemonia de culto, apresenta centenas de milhões de batizados, comunhões e casamentos que ano após ano realiza em rituais na Europa, América Latina, África, Ásia e Oceania.

Também contam com a fórmula da jurar por Deus de centenas de chefes de governo adeptos desta religião, dando graças ao Supremo e esperando que este os guie em seu trabalho e não os deixe cair no caos ou os afaste de sua fé. Ditadores como Franco, Pinochet, Somoza ou Trujillo unem-se a dirigentes eleitos pelas urnas que pertencem à mesma Igreja Católica Apostólica e Romana. Fox, Calderón, Piñera, Menem, Aznar, Bush ou Reagan. Sofrem quando a cúria lhes dá as costas e os incentiva a serem mais misericordiosos e lhes puxa as orelhas. Todos são filhos do Senhor. Por esta lógica, a distancia entre ricos e pobres, homens e mulheres, crianças e jovens se dilui. Não há como perder-se: “Totus Tus”. Família que reza unida permanece unida.

Hoje a igreja católica praticante não é capaz de assumir responsabilidades pelos seus atos. Reunidos, o Papa e os cardeais com a finalidade de dar uma resposta a uma sociedade escandalizada com os abusos sexuais que foram cometidos pelos seus membros por décadas, para não dizer séculos, não estiveram à altura do exigido. Seus fiéis devem sentir vergonha pela maneira como o problema foi tratado. Nenhuma excomunhão, nenhum ato de contrição. Só fazem um chamado a colaborar com as autoridades civis. A manifestação é simples. O problema deve ser tratado como um fato excepcional. Ovelhas perdidas do seu caminho e que sucumbiram às tentações da carne.

Eles romperam com o celibato. Que os atos são repugnantes, e mais dos claro. Portanto os sacerdotes acusados de pedofilia serão julgados pelas leis de Deus. As penitências podem ser variadas e não indicam diretamente a expulsão e a denúncia à policia. Talvez mudar o culpado da paróquia e obrigando-o a rezar com paixão, peregrinar até Fátima, Lourdes ou Santiago seja suficiente castigo para redimi-lo perante o Supremo. Em todo lugar acontecem falhas e a igreja católica não é uma exceção. Não há razão para alarme. Aqueles que acusam a igreja e denunciam os casos de abuso sexuais praticados por padres e freiras o fazem por raiva, esse é o discurso.

Querem desacreditar os seus membros, atuam de má fé. São ateus, comunistas, agnósticos, homossexuais e lésbicas. Pessoas de maus costumes. Desejam a destruição do catolicismo. Caso encerrado. O poder baseado no Vaticano tomou uma decisão de arquivar o assunto. Para evitar os escândalos dizem que o Papa e os cardeais serão mais cuidadosos ao escolher as futuras vocações. Assim aos noviços será feita uma pesquisa complementar incorporando perguntas tais como “você é pedófilo?”, “você manterá o voto de celibato?”

A resposta vai ser um mistério e será considerado segredo de confissão. Entretanto discutimos a “liberalidade” de Bento XVI e sua postura de justificar o uso de preservativos em casos excepcionais, mas não como um método para praticar sexo seguro, saudável e livre. Não há dúvidas, ser casto e puro até o matrimônio e, para esfriar os calores, duchas frias e masturbação sem preservativo.

É a igreja da pedofilia e do preservativo. Dêem as boas-vindas. Amém.

Fonte: Opera Mundi