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Angola, Brasil e os desafios educacionais

Nelson Pretto Publicado em 08.11.2010

Estou em Luanda, na Angola, às vésperas do aniversário de 35 anos da libertação nacional, que será festejado em 11 de novembro próximo. Participo de uma feira de educação - Educa Angola -, onde estão sendo mostrados políticas, projetos e propostas de uso das tecnologias digitais para o enfretamento dos enormes desafios que Angola terá que superar em sua incipiente democracia e apenas 8 anos de paz após a guerra civil que tomou conta do país depois da libertação de Portugal em 1975.

Educação é tema constante em qualquer agenda pública em todos os países do mundo. Na recente campanha eleitoral brasileira, candidatos a deputado (estaduais e federais), governadores e também os presidenciáveis, não se cansaram de usar o tema como um mantra de todas as promessas. Aqui em Angola, jornais, revistas e televisão ao longo desses últimos dias - e penso que isso não deva ser original para o momento - divulgam e comentam cotidianamente fatos ligados à educação, como a implantação de uma nova escola técnica em uma província, a distribuição de materiais escolares, os projetos de formação de professores, enfim, também aqui - ou quem sabe, principalmente aqui - o tema da educação é um dos principais bordões.

Nas comemorações dos 35 anos de libertação, lideres de todos os lugares são entrevistados e reafirmam a importância da educação, como o fez, por exemplo, o líder namibiano Andimba Toivo ya Toivo ao Jornal de Angola: o futuro está nas mãos da juventude e os "jovens devem estudar e trabalhar duro para fazer de Angola um grande país".

Nos estandes e seminários da feira Educa Angola (4 a 7.11.2010) estão sendo discutidas as experiências e os resultados das políticas públicas angolanas, ao mesmo tempo que se está trazendo para o debate os desafios para a educação na sociedade do conhecimento.

Temos defendido ao longo dos anos que educação não se faz com projetos pequenos. As ações até podem ser pequenas, mas o pensar a educação tem que ser sempre muito grande. Os desafios são enormes e as soluções simples não dão conta da complexidade da questão.

A presença das tecnologias digitais em rede pode se constituir em um importante elemento estruturador das necessárias transformações educacionais vislumbradas por todos aqueles que pensam num mundo sustentável e com justiça social.

Não podemos continuar deixando nossas escolas se constituírem em meros espaços de distribuição e consumo de informações. Escola é muito mais do que isso! Escola é o espaço onde cada criança, cada jovem, cada professor e cada cidadão, pode deixar de ser um mero consumidor de informações para se constituir, efetivamente, em produtor de culturas e de conhecimentos. No caso de Angola, isso tem que ser levado às últimas consequências já que o país é grande importador de mercadoria e soluções, o que, seguramente, não se constitui num bom caminho para a efetiva libertação de seu povo e a construção de uma grande nação.

O que aqui insisti em conferência, com a presença do Ministro da Educação Pinda Simão, foi que a criação de bens culturais como fotografias, músicas, programas de rádio, filmes e vídeos abre um importante caminho para a ampliação do universo da sala de aula, estimulando alunos e professores a produzirem esses bens culturais, articulando-os com seu contexto social e cultural, disponibilizando-os de forma livre e aberta na rede internet, visando a sua apropriação coletiva. Ações como essas podem parecer pequenas, mas são de um enorme grandiosidade uma vez que possibilitam que a escola transforme-se em espaço privilegiado para o diálogo entre culturas, saberes e linguagens, articulando de forma intensa o local e o não-local. Assim, estabelece-se um círculo virtuoso de produção coletiva e colaborativa de materiais científicos e culturais (e,portanto, educacionais!), que potencialmente fortalecem e valorizam as nossas culturas. No caso do Brasil e de Angola, países com uma diversidade cultural fenomenal, isso pode se constituir, ao mesmo tempo, no maior dos desafios e no mais rico dos processos de efetiva formação da cidadania.

O uso das tecnologias digitais, a conexão em rede de todas as escolas e a forte valorização do trabalho dos professores, pode vir a se constituir para a educação a chave de saída para o enfrentamento dos grandes desafios contemporâneos.

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Nelson Pretto professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. E-mail:
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Fonte: Terra Magazine