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O voto e a filosofia: a vitória da opinião comum esclarecida

Luís Carlos Lopes Publicado em 04.11.2010

Brasil é um país plural. Nele convivem diversos modos de pensar sobre os mesmos problemas e, ainda, reflexões que são feitas por alguns grupos e renegadas por outros. Na maioria, os brasileiros são tolerantes, negam o fascismo e desejam a manutenção e a possível ampliação do que conseguiram nos últimos anos.

As decisões tomadas, que exigem alguma reflexão, tais como as relativas ao voto, esbarram na formação das consciências. A constituição destas nada tem de natural. As consciências humanas, para além de seus aspectos biológicos, são formadas socialmente. Dependem da história e da posição ocupada por cada pessoa na organização social. Em contextos definidos, as pessoas acreditam em determinadas coisas ou são levadas a acreditar que seu modo de pensar é o único possível. Apesar de ser individual, o voto é uma atividade coletiva, porque ninguém vota sem discutir o assunto com as pessoas que o circunda, mesmo que seja para discordar ou concordar com os membros de sua rede social. Por força de lei, o voto é secreto. Porém, mesmo nos espaços compartilhados socialmente, todo mundo sabe em quem cada um vai votar.

Em um esforço para que se compreenda o funcionamento da consciência humana, costuma-se dividir as idéias que as retro-alimentam em três grandes grupos: as tradições sociais e religiosas, as opiniões (sensos) comuns e as reflexões derivadas das artes, das ciências e da filosofia. Estes três grupos de idéias podem estar de modo positivo ou negativo, claro ou confuso, nos cérebros de cada um. Normalmente, o pensante não sabe da onde vêm as idéias que defende, por vezes, ardorosamente ou paradoxalmente. Pode compreender ou não porque para ele tal princípio é mais válido do que outros. A ignorância pode ser tão arrogante quanto o pretenso saber.

As tradições são formadas pelos conceitos respaldados em livros sagrados, pelas formulações acreditadas e difundidas pelas instituições religiosas e pelas crenças baseadas em mitos e lendas derivadas das práticas históricas dos povos. Trata-se daquilo que fala ao coração e que não exige qualquer comprovação. Basta acreditar. Aliás, por em dúvida a crença na suas totalidades ou em algum aspecto específico é algo repelido pelo pensamento tradicional. Contudo, é possível acreditar, relativizando as idéias que geraram a crença e buscando aberturas para além do dogma e da fé cega.

Os sensos comuns são também crenças que se desvinculam das tradições e são hegemônicos em determinada época e espaço social. As tradições são mais estáveis, sofrendo adaptações e pequenas alterações ao longo do tempo. Os sensos comuns são atuais, voláteis e facilmente modificáveis em uma mesma época. São compartilhados entre todos e caracterizam o modo de pensar de setores ou totalidades sociais.

As artes, as ciências e a filosofia consistem em estruturas ideológicas também acreditadas. Não são o sinônimo da verdade, apesar de lutarem apaixonadamente para descobri-la. Precisam de um esforço maior para ser compreendidas. Diferentemente das tradições e dos sensos comuns, precisam se fundamentar por meio de algum tipo de prova ou padrão que as diferenciem. Por sua própria natureza e por efeito de problemas histórico-sociais não se trata de um modo de pensar possível para todos. Precisam de fontes difusoras mais complexas tais como a escola, o livro, os arquivos, as bibliotecas, os museus, o cinema de arte e outras mídias de boa qualidade. Se o acesso a isto é precário, não é difícil entender a baixa difusão do pensamento científico, das artes populares e eruditas mais sérias e de um modo de pensar mais racional.

As tradições, os sensos comuns e o pensamento racional coabitam no tecido social em graus diferentes. Uma pessoa pode tomar decisões articulando, dependendo do caso, um ou mais destes departamentos do saber cultural. Como ninguém sabe tudo, é natural que existam confusões e incompreensões sobre a origem do se pensa em determinado contexto. A outra face do problema é que existem verdades importantes para humanidade nos três grupos de artefatos culturais citados. A luta é para compreender as tradições, impedindo que elas se transformem em preconceitos. Outro problema é o de esclarecer profundamente os sensos comuns, buscando que eles estejam a favor da vida social, contando com a difusão de uma ética humanista e progressista. Ainda outro é o de se apropriar dos conhecimentos mais sofisticados produzidos pela humanidade.

A atual eleição foi um campo empírico excelente para se medir em quantas andam o pensamento brasileiro. Nela, digladiaram-se tradições, sensos comuns e, secundariamente, o conhecimento filosófico, científico e artístico. Esta dança de idéias esteve presente nas estratégias eleitorais dos candidatos desde o primeiro turno. A busca do convencimento esbarrou em várias questões que dizem respeito ao modo brasileiro de pensar. Por meio das manifestações dos candidatos, buscando votos, transpareceram vários aspectos das crenças nacionais que foram explorados, buscando-se atingir o eleitor. Os eleitores conversaram entre si e chegaram às suas próprias conclusões. As respostas das urnas indicaram como a maioria pensa e como várias minorias reconstroem o mundo em seus cérebros.

Sob o ponto de vista ideológico, o Brasil é um país plural. Nele convivem diversos modos de pensar sobre os mesmos problemas e, ainda, reflexões que são feitas por alguns grupos e renegadas por outros. Na maioria, os brasileiros são tolerantes, negam o fascismo e desejam a manutenção e a possível ampliação do que conseguiram nos últimos anos. São majoritariamente contrários a qualquer tipo de extremismo político ou religioso e esperam que alguém resolva seus problemas. Acreditam na democracia formal do país, no voto e na representação presidencial e parlamentar. Puniram vários dos candidatos que ameaçaram suas crenças e seus desejos de progresso social.

A opinião (senso) comum brasileira demonstrou-se como razoavelmente esclarecida. A maioria rejeitou visões tradicionalistas e desconfiou de quem achou que poderia manipular facilmente as massas por meio do pensamento mais estático, tributário de vários mitos socioreligiosos. Estes manipuladores esqueceram que se vive em pleno reino do senso comum. A perspectiva tradicionalista atinge a muitos. Entretanto, a própria natureza da vida em um país capitalista leva que a grande maioria faça opções vivenciais livres do peso das tradições. Podem até falar que acreditam nelas, mas na vida prática, os problemas são outros. As pessoas são levadas a tomar decisões de modo pragmático, afastando-se dos mitos mais conservadores.

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Luís Carlos Lopes é professor e escritor

Fonte: Carta Maior