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O vermelho refulgente da bandeira tricolor: França e o mundo em 2010

Luís Carlos Lopes Publicado em 26.10.2010

Os franceses não querem que as políticas neoliberais do seu atual presidente se expandam. Aliás, estas são praticamente as mesmas daquele que se tem de vencer por aqui. Cresce, internacionalmente, a agenda antineoliberal e a crítica contundente a qualquer medida que piore a situação de vida das maiorias.

Os últimos acontecimentos na França estão repercutindo em todo o mundo. O grau de magnitude dos mesmos impede que sejam escondidos pelas grandes mídias lidas e vistas no Brasil. Os noticiários vistos pela a maioria dos brasileiros não explicam o que está acontecendo em maiores detalhes, mas são obrigados, meio a contragosto, a noticiar o que vem sendo reproduzido pela imprensa mundial. Os trabalhadores se levantaram e junto com os estudantes rebelados transformaram as ruas das cidades francesas em uma grande festa popular. O que tanta gente quer?

A pauta é longa, cheia de reivindicações. Existe uma condenação geral do governo Sarkozy, um descontentamento imenso com suas políticas e com a presente situação do país. A crise econômica mundial teve graves conseqüências por lá e quem está pagando a conta são, para variar, os trabalhadores. O desemprego aumentou e as perspectivas de mudanças são para o longo prazo. A ofensiva neoliberal não parou com a crise. As burguesias locais e seus êmulos políticos continuam achando que o remédio consiste em desmontar o Estado, tirando o máximo possível das conquistas dos trabalhadores. A população está acostumada aos benefícios sociais do que já foi um dos maiores Estado do Bem-Estar da Europa. Saúde, educação, cultura e trabalho garantidos para a grande maioria, bem como aposentadorias dignas e acompanhamento social por toda a vida.

Sete em cada dez franceses apóiam as manifestações de rua e as greves. Não querem perder o que têm há muito tempo, desde o fim da Segunda Guerra. A empáfia do presidente e as medidas neoliberais que vem implantando criaram um grande descontentamento. Seu discurso parafascista de culpar os imigrantes pelos problemas nacionais, não está mais funcionando. Certamente, que muitos dos seus eleitores se arrependeram e, agora, desejam que sua era desapareça do cenário histórico.

O problema do aumento de dois anos na idade mínima para a aposentadoria, de 60 para 62 anos, foi, apenas, um dos itens motivadores da indignação popular. O Senado francês, ultraconservador, impôs ontem uma derrota aos manifestantes, ao aprovar a medida proposta pelo governo, contrariando o que as ruas clamam. Possivelmente, uma vitória de Pirro, que irá atiçar ainda mais a revolta. O vermelho da bandeira tricolor está refulgindo. O jeito imperial do presidente e a repressão policial não têm conseguido vitórias expressivas. Ao que parece, a situação está longe de estar pacificada.

Este retorno das lutas de classe na França e em vários países europeus demonstra que a história continua seu passo firme e soberano. Os sistemas de dominação capitalistas não são infalíveis e invencíveis. Quando menos se espera, as massas irrompem no cenário da história e põem em cheque o discurso oficial. Na França, as tradições revolucionárias populares têm uma larga história, tendo como ponto de inflexão a própria Revolução Francesa de 1789. Inúmeras revoltas populares eclodiram nos últimos dois séculos e algumas décadas. Em certos casos, os pobres foram usados como massa de manobra da burguesia em luta contra a aristocracia e o clero. Pouco a pouco, eles foram aprendendo e propondo suas próprias alternativas.

Karl Marx pensava que os franceses teriam sido os inventores do socialismo. Foram eles os primeiros a advogá-lo na teoria e na prática. O país jamais foi socialista, mas a resistência ao fascismo do século XX foi memorável. As direitas locais sempre que tiveram que se adaptar ao fato da imensa dificuldade de manipular a maioria dos habitantes locais. Os franceses também ‘inventaram’ a greve, na origem, uma praça parisiense onde os trabalhadores se reuniam em busca de emprego, no século XIX. Os sindicatos franceses foram o modelo de inúmeros sindicatos combativos de todo o planeta. A luta popular de rua, as barricadas, se espalharam como recurso de defesa e de ataque dos trabalhadores de toda parte. Há muito tempo, os assalariados de lá descobriram que a força de um povo unido é muito difícil ser vencida. Continuam ensinando isto para os trabalhadores de inúmeros países.

Há um paralelo entre os eventos de 2010 e os de 1968. Não se trata de algumas manifestações transitórias. Ao que parece, os franceses só abandonarão a luta se houver alguma negociação e vitórias significativas. A queda de braço com o governo continuará sem prazo definido. Esta luta terá momentos de refluxo e de avanços, até que exista algo de novo sob o sol. Em 1968, estudantes e trabalhadores derrubaram De Gaulle, obrigando-o a renunciar no ano seguinte. Os acontecimentos desta época se espalharam como um rastilho de pólvora em inúmeros países, inclusive no Brasil. Ainda hoje, respiram-se os eflúvios daquele ano memorável.

Em 2010, a agenda política brasileira é um pouco diferente da francesa, mas tem pontos de conexão. Por aqui, o problema imediato é o de impedir que o fascismo e a ignorância ganhem espaço nas eleições presidenciais, com a vitória do candidato-síntese das direitas nacionais. Os franceses não querem que as políticas neoliberais do seu atual presidente se expandam. Aliás, estas são praticamente as mesmas daquele que se tem de vencer por aqui. Feito isto, ter-se-á que discutir que futuro os brasileiros esperam. Cresce, internacionalmente, a agenda antineoliberal e a crítica contundente a qualquer medida que piore a situação de vida das maiorias.

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Luís Carlos Lopes é professor e escritor

Fonte: Carta Maior