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Islândia: Destino da elite política provoca arrepios

Maria Segre Publicado em 06.10.2010

Será avaliada sua responsabilidade pela crise

Desde a proclamação da República, em 1944, o Partido da Independência, que representa os interesses da comunidade empresarial do país, era a força política predominante na Islândia. Até a “revolução da panela”, em janeiro do ano passado, quando a habitualmente calma população do país revoltou-se derrubando o governo de Haarde batendo nas panelas e acendendo fogueiras em frente ao edifício do Parlamento.

Até então, o Partido da Independência, governava o país há 18 anos com a ajuda de seus parceiros menores. Foi o primeiro governo que desabou, internacionalmente, após a eclosão da crise financeira internacional.

Agora um relatório de 2 mil páginas e nove tomos, com título Relatório para a Verdade, atribui responsabilidades para a derrocada econômica da Islândia, em outubro do ano passado, ao governo do primeiro-ministro Haarde, o qual será levado a julgamento.

Após este fato, Haarde poderá se tornar o primeiro líder, internacionalmente, contra quem serão formuladas acusações relacionadas à crise econômica mundial. E, segundo pesquisa realizada, 33 deputados do Parlamento votaram a favor do julgamento, enquanto 30 foram contra.

De acordo com o relatório, os três bancos nacionais foram “oferecidos” em 2003 a um grupo de empresários e banqueiros próximos ao governo. Mas, finalmente, o sistema bancário islandês desabou como castelo de cartas de baralho.

O ex-diretor do outrora maior banco da Islândia, Kaupthing Bank, foi algemado e levado à prisão. Já o banco foi estatizado junto com mais duas das maiores instituições do país, Landsbanki e Glitini.

Derreteu como gelo

Em menos de uma década, a Islândia, de recursos naturais, baseados na pesca e na energia geotérmica, transformou-se em gigante financeiro. De onde veio todo este dinheiro? A resposta veio em outubro de 2008. Os irlandeses viviam com “tempo emprestado”, a exemplo de vários outros países europeus, o que transformou a economia do país em ruínas.

Em março deste ano, o povo da Islândia gritou um muito forte “não” em um importantíssimo plebiscito sobre o acordo de indenização de depositantes britânicos e holandeses, os quais perderam o dinheiro de seus depósitos após a derrocada do banco eletrônico Icesave, subsidiária do Landsbanki.

Os cidadãos islandeses rejeitaram em massa – com percentual de 93% – o acordo do governo para pagamento até 2024 dos 3,8 bilhões de euros fornecidos pela Grã-Bretanha e a Holanda como indenização aos seus respectivos cidadãos que possuíam depósitos no Icesave, o qual faliu em outubro de 2008, junto com o setor bancário do país.

O elevado percentual dos que votaram contra o acordo revela simultaneamente sua ira contra os banqueiros e contra os políticos do país, enquanto a Islândia luta para recuperar-se da derrocada econômica.

O presidente do país, Olaf Grimson, havia se recusado a homologar o acordo do pagamento aprovado pelo Parlamento, declarando que “os cidadãos se recusam a pagar pelos atos de alguns banqueiros insaciáveis”. Mas garantiu que “tanto a Grã-Bretanha, quanto a Holanda receberão – em algum tempo – seu dinheiro de volta”.

Ao que tudo indica, o destino da elite política irlandesa provoca arrepios na espinha dorsal dos partidos no poder de outros países europeus, que foram acusados de responsáveis pela crise econômica. Será que chegará a hora e a vez do Partido Trabalhista da Grã-Bretanha, ou talvez a do Fiana Fil da Irlanda?

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Fonte: Monitor Mercantil