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Liberdade, liberdade, desça do céu e veja a verdade da vida dos homens

Luís Carlos Lopes Publicado em 30.09.2010

Sem o sonho, não se podem imaginar as possibilidades do futuro. Isto Cervantes sabia, há quatro séculos. Seus moinhos de ventos, armaduras e lanças de ataque continuam disponíveis a todos os ibero-americanos que não renegam sua história.

A questão da liberdade de opinião retornou mais uma vez ao cenário sociomidiático brasileiro. Novamente, poderosas forças se digladiam dizendo que suas opiniões e suas visões do que é a liberdade são as corretas. Quem é contra as mesmas é porque defende o totalitarismo. Neste, a única liberdade seria a permitida pelo governo, e as opiniões possíveis de serem aceitas consistiriam nas acreditadas pelo poder político de plantão. O justificado medo da verdade oficial dos regimes de força é manipulado e aplicado em situações que nada tem a ver com as várias tragédias políticas vividas no Brasil e no mundo nos últimos cem anos. Faz-se o jogo retórico de palavras misturando propositadamente termos complexos que permitem as mais diversas leituras. Como no dizer de um velho irracionalista televisivo: “Eu vim para confundir!” Não há nenhum interesse em convencer com base na compreensão dos fatos e das idéias. Esta é substituída pela emissão de palavras-conceito vazias de sentido. Isto leva a impossibilidade de um diálogo frutificante, aberto e desarmado onde se possa chegar à verdade, como pensavam os filósofos gregos.

A liberdade e a opinião vazias de objetividade servem a qualquer propósito e a qualquer sujeito. Facilmente, articulam-se para impedir que se tenham opiniões livres da manipulação, imaginando-se que se viva no reinado possível e relativo da mesma. O reino absoluto da liberdade de pensar é quimérico, logo, impossível de ser alcançado em sociedades com imensas diferenças sociais, culturais, políticas e ideológicas. Ela é, para os múltiplos barões das mídias, poder continuar usando dos artifícios da manipulação, lucrando com a omissão, a mentira e a intriga. Se alguém questionar esta ‘liberdade’ deve ser esmagado, por não respeitar o poder aristocrático dos barões. A liberdade de imprensa de que falam é, de fato, a liberdade das empresas que detêm em dizer o que bem entendam, de acordo com suas ligações e redes de interesses. É antiga a defesa da ‘liberdade’ em abstrato, sem esclarecer o que de fato se defende, ou melhor, o que está por trás da alegação que a mesma está em perigo. O velho liberalismo a praticou desde a revolução francesa. O recentíssimo neoliberalismo também se esmerou em se camuflar como campeão da liberdade, ‘de mercado’.

Como é fácil mobilizar pessoas de grande notoriedade para causas de um subjetivismo absurdo. Elas ficam bem quietas frente às várias questões candentes do mundo atual. Assistiram, por exemplo, os professores de São Paulo serem massacrados sem nenhum protesto. Pouco se manifestam sobre problemas efetivos como os relacionados à miséria e à ignorância de milhões. Todavia, atendem ao primeiro chamado, quando se imagina qualquer possibilidade de se questionar suas certezas, seus mundinhos particulares que as protegem da vida real da maioria. Assinam manifestos e participam em manifestações sem fazer qualquer esforço para entender a que senhores estão de fato servindo. Alguns estão muito velhos para serem chamados de ingênuos, mas, paradoxalmente, demonstram como não é difícil aceitarem a manipulação sem maiores objeções.

Imaginar mídias livres reais, talvez utopicamente, – O que seria de nós sem as utopias, mesmo discordando delas! – seria o mesmo que dizer que a sociedade controlaria diretamente e efetivamente todos os meios de comunicação. Estas mídias ideais seriam propriedades coletivas das populações que escolheriam os conteúdos e as formas do que fosse comunicado para todos. Não seriam empresas e nem pertenceriam aos governos. As notícias e os comentários seriam pautados de acordo com o interesse de cada comunidade. O entretenimento, recheado de tradições, sensos comuns e preconceitos seria substituído pelo que já existe e que poderia ser criado ou reproduzido em matéria das artes populares e eruditas e das ciências. A publicidade comercial daria lugar a reclames educativos e chamativos, lembrando as responsabilidades, os direitos e os deveres da população, transformada em reais cidadãos. A intriga seria banida para sempre de qualquer meio de comunicação. O racismo, o androcentrismo e o preconceito contra a inteligência teriam igual destino: a lata de lixo da história. Em suma, mídias livres de fato trabalhariam pela elevação das melhores qualidades humanas e pelo combate a todo e qualquer tipo de violência.

Se o leitor chegou até aqui deve estar pensando que o autor destas linhas enlouqueceu. Ele garante aos seus leitores que ainda não perdeu o juízo, o que não é impossível frente a tantos problemas vividos cotidianamente em décadas de existência. Há um certo desespero frente a algumas impossibilidades. Entretanto, ele acredita como um célebre barbudo do século XIX, que os problemas são colocados para serem resolvidos no seu justo tempo. Nem sempre percebe-se que este tempo chegou ou está para chegar. Não raro, imagina-se, com boa-vontade e pouco realismo, que está tudo pronto para ser resolvido amanhã. No dia seguinte, descobre-se que o caminho é longo e a estrada reserva novas dificuldades a ser superadas. Sem o sonho, não se podem imaginar as possibilidades do futuro. Isto Cervantes sabia, há quatro séculos. Seus moinhos de ventos, armaduras e lanças de ataque continuam disponíveis a todos os ibero-americanos que não renegam sua história.

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Luís Carlos Lopes é professor e escritor

Fonte: Carta Maior