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América Latina e Ásia

Javier Santiso Publicado em 11.08.2010

A China vem ocupando espaço que antes era do Japão nas relações com a América Latina, ao mesmo tempo que supera o vizinho como segunda maior economia do mundo

As relações entre América Latina e Ásia vêm passando por mudanças drásticas. Por décadas, o Japão dominou essa relação, no papel de principal parceiro comercial e financeiro na região, por parte da Ásia. Agora, a China vem tomando essa liderança, ao mesmo tempo que supera o vizinho asiático como segunda maior economia do mundo, atrás dos Estados Unidos.

Entre 1990 e 2008, as relações entre América Latina e Japão cresceram, mas em um ritmo menos sustentável que as da China com a região. Em 2008, o intercâmbio comercial entre América Latina e Japão somou cerca de US$ 60 bilhões (US$ 30 bilhões de importações e de exportações), enquanto o da China com a região disparou e chegou a US$ 140 bilhões (cerca de US$ 70 bilhões para cada componente). O ponto de inflexão foi o ano 2002, quando a China superou o Japão pela primeira vez como principal parceiro comercial asiático da América Latina.

A diferença continuará se aprofundando nos próximos anos graças à ascensão econômica da China, já que o país continuará precisando consumir matérias-primas em grande escala para sustentar a decolagem de sua economia. A relação comercial dos dois países com a América Latina foi estruturada ao redor das matérias-primas. A ascensão chinesa representa para a América Latina a emergência de mais um parceiro na Ásia, em concorrência direta com o Japão.

O mesmo ocorre com os investimentos externos diretos (IEDs) de ambos os países na América Latina. Tanto a China como o Japão os direcionam principalmente aos recursos naturais, para abastecer sua economia, de forma que os setores de energia, mineração, siderurgia e petróleo são os alvos predominantes desses investimentos. Ao longo dos últimos dez anos, vimos os investimentos da China aumentarem na região, superando os do Japão em muitos países latino-americanos. Por enquanto, os investimentos japoneses representam um leque um pouco mais amplo que os da China, como evidenciado pela inversão de quase US$ 500 milhões da Nissan no México, neste ano.

Isso, no entanto, pode mudar. A China pode até converter-se no primeiro investidor no Brasil, um país no qual historicamente o Japão investe com força, neste ano. Só no primeiro semestre de 2010, a China comprometeu investimentos de mais de US$ 20 bilhões, dez vezes mais que já realizou no país. Entre os principais negócios concretizados destaca-se o contrato da estatal chinesa Wisco com a empresa local LLX, para a construção de uma siderúrgica no interior do Rio de Janeiro por US$ 3,3 bilhões. Agora, entretanto, há muitos outros setores envolvidos, desde o elétrico até o agroindustrial, passando pelo automotivo e o de telecomunicações.

Essa onda investidora chinesa não é específica da região. No primeiro semestre do ano, de acordo com dados do JP Morgan, o volume total de aquisições de empresas chinesas no exterior somou US$ 55 bilhões, em comparação aos US$ 356 bilhões de empresas dos EUA. A China tornou-se o segundo maior investidor mundial e a América Latina tem atrativos importantes, assim como a África, pela riqueza em matérias-primas.

De fato, a Agência Internacional de Energia (AIE) destaca que, em 2009, pela primeira vez na história, a China superou os EUA como principal consumidor de matérias-primas no mundo. A Venezuela, por exemplo, é um dos países que concentram o maior fluxo de investimentos chineses no setor petrolífero. Em 2009, o país sul-americano captou 14% dos investimentos em participações de empresas como CNPC, Sinopec e China National Offshore Oil Corporation fora da China. O volume investido somou US$ 18,2 bilhões, sendo que os recursos destinados à Venezuela totalizaram US$ 2,5 bilhões. É a maior quantia investida pela China no setor de fontes de energia na América Latina.

A esses investimentos somam-se os realizados em setores de tecnologia, em particular, na fábrica para produzir telefones celulares na Venezuela por meio de uma empresa estatal conjunta, que terá a Huawei Technologies como uma das parceiras. Por sua vez, o grupo chinês Haier também acertou acordos para criar empresas mistas na Venezuela e um centro de pesquisas e inovação, voltado ao desenvolvimento de produtos de tecnologia “limpa”. Os dois países também acertaram a criação de uma empresa aérea com investimento inicial de US$ 300 milhões.

A Índia também desponta na região. Para a Tata Consultancy Services (TCS), a América Latina é região-chave onde emprega 8 mil pessoas e continua em expansão. O plano de investimentos da Índia para a região chega a US$ 12 bilhões. O Brasil encabeça a lista, seguido pela Venezuela e Bolívia (US$ 2,1 bilhões), Chile (US$ 1,5 bilhão) e Argentina (US$ 1,2 bilhão). Cingapura, Malásia e Coreia do Sul também se interessam pela região.

Este ano, o Temasek, fundo soberano de Cingapura, anunciou acordo com a Impulsora Mexicana de Desarrollos Inmobiliarios (IMDI) para criar empreendimento conjunto de US$ 200 milhões, que buscará oportunidades de negócios em residências de valores acessíveis no México e preparará o terreno para seus primeiros investimentos na região. Paralelamente, a rede tailandesa Banyan Tree decidiu investir US$ 180 milhões na construção de dois hotéis no México. Chile e Malásia assinaram acordo de livre comércio, após três anos de negociações. A Coreia do Sul, por sua vez, comprometeu-se a investir entre US$ 122 milhões e US$ 325 milhões para tornar-se membro do Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE).

A entrada da China na América Latina desloca o Japão do posto de primeiro parceiro asiático na região. Também gera um ativismo maior da Ásia na América Latina. Além de Japão e China, agora despontam mais noivas asiáticas. Esse flerte entre ambas as regiões não é nada além do que mais um reflexo de como as relações econômicas mundiais vêm se reordenando.

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Javier Santiso é professor de Economia na ESADE Business School

Fonte: jornal Valor Econômico