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Jogo de espelhos entre o BC e o Mercado

Paulo Nogueira BGatista Jr. Publicado em 25.07.2010

Há poucos dias, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central resolveu aumentar, mais uma vez, a taxa básica de juro. Em apenas três meses, o Copom subiu o juro básico de 8,75% para 10,75%. Com isso, a nossa taxa de juro real (descontada a inflação esperada) fica em 5,6%, de longe a mais alta entre os principais países.

Segundo levantamento da Cruzeiro do Sul Corretora, a média das taxas reais nos 40 principais mercados é negativa em 0,6 %. No Japão, o juro real básico é 1%; na Alemanha, 0,2%; nos EUA, a taxa é negativa em 0,9%. Por que o Copom insiste na política de juros altos? Afinal, juros elevados aumentam o custo da dívida pública e prejudicam o crescimento e a competitividade da economia. O governo, do qual o BC faz parte, é quem arca com o grosso da conta decorrente da política de juros.

Como se sabe, o temor do BC é perder o controle da inflação. A sua percepção é que a economia brasileira estaria superaquecida, em razão de uma expansão excessiva da demanda interna. Essa preocupação não é inteiramente infundada. Desde o início do ano, a taxa de inflação tem ficado acima do centro da meta do BC, que é 4,5%. As expectativas de inflação do mercado, coletadas em enquete semanal do BC, também apontam para taxas acima de 4,5% em 2010 e em 2011.

Mais significativo talvez seja o que se pode observar desagregando os índices de preços. Por exemplo, a inflação dos serviços tem se situado em 6,8% nos meses recentes, bem acima da inflação média. Os serviços, por serem menos comercializados internacionalmente do que os bens, têm os seus preços determinados em maior medida pela interação entre a oferta e a demanda internas. Assim, uma alta acentuada dos seus preços pode indicar um quadro de excesso de demanda.

Outra forma, provavelmente mais precisa, de avaliar a questão é tentar separar três grupos no índice de preços: a) os produtos (bens e serviços) não comercializáveis internacionalmente; b) os produtos comercializáveis; e c) os produtos monitorados. Os preços dos comercializáveis e monitorados respondem muito menos à interação entre oferta e demanda agregadas. Os primeiros dependem dos preços internacionais e da taxa de câmbio. Os monitorados são fixados por contrato ou por políticas governamentais.

A inflação dos itens não comercializáveis foi 7,1% no acumulado em doze meses até junho. No mesmo período, a inflação dos comercializáveis foi 3% e a dos monitorados pouco mais de 4%. Indica que a pressão de demanda responde, sim, por parte do aumento recente da inflação. Isso dito, fica a sensação de que o Copom está exagerando na dose. Já temos alguns sinais de que a economia está desacelerando. A produção industrial começou a cair; as vendas internas de automóveis despencaram em junho. O risco de superaquecimento diminuiu — ou talvez já tenha sido superado pelas medidas de contenção da demanda adotadas pelo governo nos campos fiscal, monetário e creditício.

Os principais índices de preços ao consumidor (IBGE, FGV e Fipe) estão indicando, desde junho, inflação próxima de zero ou até deflação, o que parece confirmar que a aceleração do início do ano resultou em parte de fatores temporários, como o efeito das chuvas sobre os preços de alimentos ou a antecipação de compras associada à expectativa de remoção de incentivos fiscais.

As expectativas de inflação do mercado também têm que ser vistas cum grano salis. Na formação dessas expectativas, há um jogo de espelhos entre o BC e o mercado. Como as incertezas são sempre grandes, as expectativas são em parte resultantes de convenções. Cada agente econômico faz as suas projeções com um olho no vizinho e outro (bem arregalado) no BC. Assim, as expectativas dependem, em certa medida, do próprio BC — não só das suas decisões, mas dos sinais que vai emitindo. Este, por sua vez, afirma que toma as expectativas de mercado como um parâmetro em suas decisões.

Pode surgir um círculo vicioso em que os temores do BC, não necessariamente justificados, reforçam os temores do mercado, e vice-versa. O resultado, não necessariamente desagradável para o mercado e a turma da bufunfa, são juros generosos, custeados pela Viúva.

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e diretor-executivo pelo Brasil e mais oito países no Fundo Monetário Internacional, mas expressa os seus pontos de vista em caráter pessoal. 

Fonte: O Globo