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Problemas na investigação sobre a mudança climática

Antonio Ruiz de Elvira Publicado em 14.07.2010

Atravessamos já a primeira década do século XXI e todas as previsões sobre a mudança climática se cumpriram. Mas aqueles que fazem montanhas de dinheiro vendendo combustíveis fósseis negam-se a reconhecer os danos já causados e, quando reconhecem, dedicam uma pequena parte de seus imensos lucros para o desenvolvimento de energias alternativas. Uma das coisas que fazem é tentar desmoralizar investigadores sérios que estudam a evolução do clima.

Atravessamos já a primeira década do século XXI e todas as previsões sobre a mudança climática se cumpriram. Mas aqueles que fazem montanhas de dinheiro vendendo combustíveis fósseis negam-se a reconhecer os danos já causados e, quando reconhecem, dedicam uma pequena parte de seus imensos lucros para o desenvolvimento de energias alternativas (1). Negam-se a tal ponto (gerando, enquanto isso, catástrofes seqüenciais) que conseguiram destroçar a reunião de Copenhague, na qual deveriam ter sido aprovadas medidas para dar prosseguimento ao Protocolo de Kyoto. Uma das coisas que fizeram foi procurar desprestigiar um dos melhores investigadores sobre a evolução do clima, naquilo que se denominou “climagate”: o uso de informações retiradas do contexto para desmoralizar uma pessoa, como se, de uma conversa telefônica, se extraíssem as palavras “assassinei”, “eu”, “ontem”, “menina”, para construir a frase “Eu assassinei uma menina ontem à noite”, quando o que a pessoa disse foi “Inteirei-me ontem que assassinaram uma menina. E eu digo…”

Os dados manejados por Phil Jones e sua equipe da Universidade de East Anglia não foram manipulados (isso pode ser comprovado por quem tiver vontade e tempo,pois os dados são públicos. Eu fiz isso) e seu tratamento estatístico é perfeitamente correto. A ciência tem como garantia a possibilidade de que qualquer um pode repetir o que foi feito por outros, para comprovar os resultados anunciados. Estimulo os leitores a que se armem de paciência e façam isso, antes de aceitar afirmações errôneas.

A investigação sobre a mudança climática segue seu ritmo. Provavelmente, os modelos globais alcançaram a precisão máxima de que são capazes, enquanto se mantém fiéis às simplificações de partida, sobretudo ao que se conhece como aproximação hidrostática, que substitui a integração direta da velocidade vertical por seu cálculo a partir das duas velocidades horizontais. A aproximação é falsa e invalida qualquer resultado dos modelos que pretenda ter precisão espacial. Para obter essa precisão é preciso utilizar uma técnica que se denomina aumento de escala mediante estatística, mas ao rechaçar os que praticam o que é realmente esta última ciência, os resultados não são confiáveis. Sabemos com certeza que o mundo está aquecendo, que os pólos esquentam umas três vezes mais depressa que o resto do planeta. Sobre isso não cabe nenhuma dúvida. Mas os modelos utilizados são incapazes de fazer previsões confiáveis sobre o que vai acontecer em cada zona do globo de menos de 50 quilômetros quadrados.

Aqui temos dois problemas quase insuperáveis. Um é que o importante são as magnitudes pequenas, como a velocidade vertical do ar. Da mesma foram que os modelos econômicos desprezam, por insignificante, a magnitude “energia” em seus cálculos, quando ela é a variável de controle, os modelos climáticos desprezam a velocidade vertical, que também é a variável de controle.

Na teoria do controle, são sempre pequenas ações que controlam grande fluxos: a energia para mover uma comporta que regula a saída da água de um pântano é desprezível frente à energia da água que sai. Mas é a comporta que regula o fluxo de água. O segundo problema é que a ciência do clima é já uma disciplina madura. Isso quer dizer que as idéias inovadoras dos jovens (ou as minhas, ainda que não seja jovem) são rechaçadas pelos que controlam as publicações, pelos editores que basearam seu prestígio em idéias tradicionais e não podem, agora, aceitar outras.

Outro problema atual na investigação sobre o clima é apresentado pelos aerossóis, as partículas de tamanhos desde 100 nanômetros a algumas micras, que circulam pela atmosfera e servem de núcleos de condensação do vapor d’água para formar nuvens. O principal gás que apanha a radiação infravermelha emitida pela superfície terrestre é o vapor d’água, que se condensa formando nuvens. Dependendo de as nuvens serem altas ou baixas, seu efeito sobre a energia incidente em forma de luz (sua capacidade de reflexão ou albedo) e seu efeito sobre sua absorção de radiação eletromagnética infravermelha são muito diferentes. Não sabemos ainda como se comportam os aerossóis no que diz respeito à formação de nuvens. É um campo de investigação de ponta hoje e esperamos que se façam avanços importantes ao longo dos próximos dez anos. As variações sobre as previsões do aquecimento que dependem da existência de aerossóis representam um entorno de 0,3° C, o que é muito importante hoje, e muito menos importante dentro de dez ou vinte anos.

Finalmente, gostaria de dizer algumas palavras sobre o que significa “mudança” na investigação sobre “mudança climática”. A comunidade científica e a comunidade humana em geral não entendem o que é mudança. Costuma-se pensar que podemos extrapolar o que temos hoje em relação ao futuro. Isso é evolução, mas não mudança. Se, em 1880, se quisesse extrapolar (e isso foi feito e se faz até hoje na ciência da teoria econômica) a situação de então até o ano 2000, teriam se desenhado melhores carruagens a cavalos, melhores trens baseados no vapor d’água e melhores lampiões utilizando o petróleo. Mudança significa algo novo, que não podemos obter a partir das séries temporais passadas. Podemos utilizar estas como controle dos modelos matemáticos, mas as situações novas só podem ser estudadas mediante a aplicação das leis da física (neste caso, do clima). O clima é um sistema complexo não linear capaz de saltar de um regime a outro, como por exemplo, de uma glaciação a uma deglaciação, ou de um par de faixas nas trajetórias dos temporais a seis faixas. Mudança significa saltar de um regime a outro, e isso não podemos encontrar mediante a análise de séries temporais passadas, mas sim mediante a aplicação da teoria. Mas não sabemos fazer isso enquanto alguém exige que fiquemos apenas dando mais voltas na mesma manivela. Em geral, já sabemos muito, mas há muitíssimo ainda por saber, sobretudo a respeito dos detalhes.

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Nota:

(1) http://www.domain-b.com/companies/companies_e/Exxon_Mobil/20080529_exxon_mobil.html

Catedrático de Física Aplicada na Universidade de Alcalá e membro do Forum Europeu do Clima.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Sin Permiso, na Carta MaiorCarta Maior