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Ásia Central: a revolução não mora mais aqui

Georges Pezmatzoglu Publicado em 19.05.2010

Regimes autoritários reinam na região Baku (Azerbaijão)/Alma Ata (Casaquistão) – Corrupção, nepotismo, mortes misteriosas de adversários políticos, total desrespeito aos direitos humanos e violação de qualquer sentido de democracia. Os regimes autoritários nos países da Ásia Central revelam extraordinária capacidade de sobrevivência utilizando como ferramenta a mordaça na oposição e a repressão armada aos adversários.

Existem, também, outros fatores que garantem o prolongamento da vida política do autoritarismo nos países da Ásia Central. O mais importante é a pobreza que assola os cidadãos destes países, não deixando margem para buscas políticas. Também, a pobreza tem levado os jovens a migrarem ao exterior em busca de nível de vida melhor, carecendo a oposição de seu viveiro e de sua tropa de choque na luta por mudança.

Além disso, EUA, Rússia e China disputam queda-de-braço pela primazia na exploração da riqueza energética da região, fato que não lhes permite se tornarem desagradáveis às lideranças locais, lembrando-lhes temas “baratos” como a democratização.

Por fim, os colossos petrolíferos em atividade na Ásia Central têm realizado gigantescos investimentos e, consequentemente, não desejam – por razões óbvias – confusões politico-institucionais e revoluções multicoloridas.

Por quanto tempo?

O exemplo de Quirgistão, que no espaço de cinco anos mandou para casa dois presidentes autoritários, brevemente será conhecido nas estepes do Casaquistão e daí ecoará em toda a Ásia Central. Analistas internacionais confirmam que não estamos falando exatamente sobre fenômenos de nevasca: a mudança virá tarde, mas virá.

Corrupção, nepotismo, mortes misteriosas de adversários políticos, total desrespeito dos direitos humanos e, violação de qualquer sentido de democracia. As características são comuns nestes regimes, totalmente “diferentes” dos países da Ásia Central, os quais, a exemplo exatamente do Quirgistão, tentam passar à época pós-soviética, mas com um processo absolutamente “soviético”.

Todos os seis países da Ásia Central – Azerbaijão, Quirgistão, Casaquistão, Uzbequistão, Tatziquistão e Turcomenistão deram “as boas-vindas” à dissolução da União Soviética com a mesma liderança, a qual, de uma ou de outra forma, conserva ainda o controle do poder central.

Um poder tão personalizado que torna-se veículo para a satisfação de todos os desejos particulares do presidente: como no caso de Saparmurat Niyiazov, secretário-geral do Partido Comunista de Turcomenistão e, por força de sua autodenominação de “Turkmenbasi” (líder dos turcomanos em turco) para em seguida dar aos 12 meses do ano nomes de membros da sua família.

E quatro anos após a morte de Niyiazov, os turcomanos continuam sendo um dos povos mais pobres do mundo, tanto no que diz respeito a renda per capita, quanto no total das riquezas produzidas pelo país.

Poder e corrupção

O “constitucionalmente” herdeiro legal de Niyiazov foi encarcerado para ser “entronizado” Berdimuhammedov, um líder igualmente duro e autoritário, a exemplo de seu antecessor. E seu modelo de poder em nada é diferente de Niyazov.

Os Jornalistas Sem Fronteiras colocam o país entre os últimos na classificação mundial em liberdade de imprensa, enquanto o indicador de percepção da corrupção (isto é, como a compreendem os cidadãos) oscila em torno de 10 (incorruptível).

Quadro semelhante é do Tatziquistão. A fraude nas eleições de 28 de fevereiro deste ano garantiu “importante vitória” ao partido do governo, que venceu com 72% dos votos. E enquanto o presidente Rahmon nada na riqueza, 70% dos 7,3 milhões da população do país sobrevivem abaixo do nível de pobreza.

Mas, graças às regras de boa vizinhança, os EUA mantêm silêncio de peixe. A fronteira comum com Afeganistão, com extensão de 1.300km, mantém a boca de Washington “fechada”. “O Tatziquistão tem gigantesca importância para a pacificação no Afeganistão”, declarou Richard Halbroock, por ocasião de sua visita oficial na capital Dushanbe.

Um outro regime – mais ou menos – “autoritário com limitado respeito aos direitos humanos” é também o Uzbequistão, de acordo, pelo menos, com a Secretaria de Estado dos EUA. Torturas, prisões ilegais e severas restrições das liberdades são fenômenos cotidianos.

Porém, aquilo que se mantém vivo na memória dos cidadãos é o massacre de Adjão, em 2005, quando as forças de segurança avançaram atirando contra manifestantes matando mais de um mil. País sem liberdade é também o Azerbaijão, onde a família Aliyiev comanda tudo com mão de ferro neste país plantado sobre um oceano de petróleo, explorado pelas petrolíferas multinacionais.

Gaidar Aliyiev, pai do atual presidente, foi, durante o regime da União Soviética, comandante da KGB local e transferiu os métodos do serviço secreto soviético à política, o mesmo seguido pelo seu filho.

Finalmente, caso análogo é o Casaquistão, onde o há 20 anos o presidente Nazarbayiev tem realizado progressos espetaculares na transferência de seu país à economia de mercado, deixando 40% da população sobrevivendo nos limites da pobreza, enquanto a democracia está morrendo de fome.

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Fonte: Monitor Mercantil