Artigos

A mais bela capital deste mundo

Oscar Niemeyer Publicado em 30.03.2010

Juscelino Kubitschek, empenhado em construir a nova capital solicitou Oscar Niemeyer, explicando-me, o que pretendia fazer: “construir a capital do Brasil. Uma capital moderna. A mais bela capital deste mundo!”. A região era um imenso deserto, perdido no Planalto Central. Mas a determinação de JK era tão contagiantes que logo envolveu todos em seu projeto. Naquele fim de mundo surgiria a nova capital do nosso país.

Em 1950 Juscelino Kubitschek é eleito governador de Minas Gerais. Pampulha já está concluída e, como ele previa, é o bairro novo e elegante da cidade. O cassino todo iluminado, refletindo suas luzes nas águas da represa, e a burguesia local a se exibir em meio a seus mármores, espelhos e ônix.

Para tudo JK me convocava, já era seu arquiteto preferido. E outras obras, por ele programadas, começaram a surgir pelo estado. Em Belo Horizonte, projetei a reforma da Casa das Mangabeiras, onde ele morou; a biblioteca; o Colégio Estadual; o teatro – depois, completamente desfigurado; o Banco da Produção, em Juiz de Fora; o Banco do Brasil, em Diamantina, sua cidade natal, e também lá, o clube, a escola e o hotel.

Passaram-se os tempos, JK é eleito deputado e, pouco depois, presidente da República, e logo me procura. Vem à minha casa das Canoas e, voltando juntos para a cidade, me confia, com entusiasmo: “Vou construir a nova capital deste país e você vai me ajudar”. Explicando-me, com a mesma euforia de 20 anos atrás, o que pretendia fazer: “Oscar, desta vez vamos construir a capital do Brasil. Uma capital moderna. A mais bela capital deste mundo!”.

Daí em diante, a ideia de Brasília nos absorveu intensamente. A seu pedido entrei em contato com Israel Pinheiro, que se incumbiria da construção e, dias depois, lá ia eu de avião com JK e sua comitiva para ver o local escolhido.

Era um imenso deserto, perdido no Planalto Central. Mas a minha surpresa e as minhas dúvidas logo se desvaneceram diante de seu otimismo. Nele tudo era tão claro e sua fé e determinação tão contagiantes, que logo me convenci de que naquele lugar, naquele fim de mundo, surgiria dentro de poucos anos a nova capital do nosso país. Dinâmico, como nos velhos tempos de Pampulha, JK não podia esperar: “Vamos começar o palácio e o hotel!”.

Mas era preciso criar um ponto de apoio naquele descampado, uma construção onde ele, nos fins de semana, pudesse dormir. E foi no Juca’s Bar, com Milton Prates (1), que o assunto foi resolvido. Fiz o projeto de uma casa de madeira: no primeiro piso, uma sala, quartos e banheiros, e no térreo, a cozinha e um local de comer. Assinei a promissória para um banco fornecer o dinheiro. Era um presente para JK. E, em 10 dias, o Catetinho foi construído.

Os projetos de Brasília começaram a ser elaborados no edifício do MES, mas logo depois compreendemos que deveriam ser feitos no local, seguindo as obras em curso, e para isso apressamos a construção das casas populares onde iríamos morar.

Antes de viajar, conversei com Israel Pinheiro. Dei-lhe a relação dos que deveriam seguir comigo, combinei salários etc.

Nessa ocasião ele falou de meu contrato. Receberia um salário normal de funcionário público, mas acrescentou: “Posso dar-lhe uma comissão”. Respondi logo: “Nada de comissão”. Era uma palavra que sempre detestamos. Se o nosso amigo tivesse falado diferente, houvesse dito, por exemplo, “Você vai receber um salário de tanto, mas lhe darei, como regula a tabela do Instituto dos Arquitetos do Brasil, uma percentagem sobre a obra”, eu talvez pudesse concordar. E foi pelo emprego da palavra “comissão” que elaborei todos os projetos de Brasília por apenas 40 mil cruzeiros mensais.

Mas o problema de dinheiro não me preocupava. Foi até bom para mim. Recebendo tão pouco, além de ter fechado, praticamente, meu escritório no Rio, sentia-me à vontade – desinibido – para muita coisa. E uma delas, a que maior prazer me deu, foi contratar quem eu bem quisesse para comigo trabalhar na nova capital. E isso explica os amigos que convoquei. Primeiro, cerca de 20 arquitetos para os trabalhos programados; depois, outros amigos de profissões diferentes, pelo simples prazer de ajudá-los, sabendo-os com dificuldades financeiras.

Daí termos em nossa equipe um médico, um jornalista, um advogado, um goleiro do Flamengo e outros ainda de profissões indefinidas.

Todos me foram úteis e a equipe se fez mais variada, a conversa mais versátil, o trabalho mais completo, cada um atuando dentro de suas próprias aptidões.

Em pouco tempo formamos um grupo coeso e amigo. Todos juntos no correr das casas populares já construídas.

O conforto era pouco: uma sala, dois quartos, banheiro e cozinha. Meu quarto era pequeno: um catre, um pequeno armário provisório e um banco como mesa-de-cabeceira.

O resto era a terra vazia, desprotegida, coberta de poeira nos tempos de inverno e de água e lama nos meses de verão.

É claro, esses pequenos desconfortos se diluíam diante do trabalho que tanto nos ocupava. Mas ficava aquela sensação de fim de mundo, a lembrar a família e os amigos distantes, sem estradas e telefone. Apenas um pequeno rádio de campanha a nos servir. E tudo se agravava para os que lá estavam sozinhos, a imaginar como seria bom ter uma mulher do lado, com quem pudessem dividir suas angústias, e abraçá-la um pouco. E isso explicava muita coisa. Muita união escondida que aquele abandono justificava.

A fuga era nos reunirmos à noite para bater papo, discutir sobre as obras em andamento, jogar cartas ou, então, o que ultimamente fazíamos, tocar nossas batucadas. Paulão no violão, Sabino no pandeiro, eu, procurando acompanhá-los, no cavaquinho. Os amigos a cantarem, e Willy (2), com o samba na alma, a dançar à nossa volta com sua ginga espetacular.

Outras vezes, ir para a Cidade Livre, o faroeste da nova capital. Uma rua larga coberta de lama, repleta de jipes, carroças e cavalos, ladeada de construções baixas de alvenaria, onde ficavam o pequeno comércio, bares, restaurantes, boates e as prostitutas da cidade.

Sentados numa boate, ficávamos a ver, satisfeitos, a confraternização que aquele fim de mundo provocava; a caipirinha a correr pelas mesas e nossos companheiros, arquitetos, engenheiros e operários, a dançar na pista de tabuado.

Era a nostalgia do cerrado, a saudade das terras distantes que os reunia ali solidários.
As obras prosseguiram, a poeira vermelha marcava as ruas em construção e os canteiros de serviço quebravam o antigo silêncio daquela área que começava a se povoar.

Determinado, JK nos dava seu exemplo, indiferente às críticas com que a reação procurava torpedear o empreendimento. Rindo dos que diziam que o lugar fora mal escolhido, que não haveria vegetação nem jardins, que a água do lago projetado iria desaparecer na terra porosa da nova capital.

E as obras seguiram nos prazos contratados e Israel, seu braço direito, as comandava sem vacilações nem burocracia, com a coragem dos que sabem estar agindo bem. E nós a trabalhar de sol a sol, acompanhando JK a altas horas da noite pelas obras em andamento.

Não havia tempo a perder e as construções se iniciavam, tendo apenas calculadas suas fundações. O resto, os detalhes das estruturas e da própria arquitetura, vinha depois, acompanhando o ritmo programado.

E a ideia de JK – nossa, inclusive – não era de uma cidade qualquer, pobre e provinciana, mas de uma cidade atualizada e moderna, que representasse a importância de nosso país.

Às vezes JK nos convidava para irmos à noite ao Alvorada. Estava sozinho em Brasília e queria conversar um pouco. E lá íamos nós. Milton Prates, César Prates, Rochinha, Juca Chaves (3), Bené Nunes (4) e o Dilermano Reis (5) com o seu violão. Alguns vinham acompanhados, outros, sozinhos como eu. E nos salões do Palácio, reunidos em círculo diante de JK, ficávamos a ouvir suas aventuras.

E a conversa era sempre a mesma. Os obstáculos que surgiam, as mentiras espalhadas aos quatro ventos, os problemas econômicos e políticos que tinha de enfrentar, sua determinação de tudo concluir no prazo fixado. E entrava em detalhes desconhecidos, lembrando os que tentavam paralisar Brasília, concluindo revoltado: “Que canalhas!”.

Atentos, escutávamos sua dissertação apaixonada, satisfeitos de vê-lo tão confiante e otimista. E se a ele faziam bem aqueles momentos de reafirmação e confidências, a nós mais ainda, preocupados que estávamos com o bom êxito do empreendimento.

De quando em quando Bené, que dedilhava ao piano suas melodias, fazia subir ao ar um samba preferido e JK saía a dançar desenvolto, lépido, feliz, contente em esquecer por momentos sua vida tão atribulada.

E a conversa recomeçava. Brasília, as metas programadas, a estrada Belém-Brasília... A grandeza dessa estrada formidável, a derrubada das matas, das árvores gigantescas, a travessia de rios, morros e pantanais, a velha Amazônia desconhecida e misteriosa.

Dilermano fazia fundo musical com suas valsas antigas e César Prates cantava aos berros velhas e sentimentais canções brasileiras.

E assim se passavam aqueles serões inesquecíveis, que lembram a presença de um presidente possuído do maior dinamismo, mas capaz de guardar tempo para ver os amigos e, como outro homem qualquer, rir e brincar um pouco.

Tarde, uma ou duas horas da madrugada, JK nos acompanhava na saída. E aí nos retinha, empolgado com a noite de Brasília. O céu imenso, cheio de estrelas, os palácios já erguidos a se destacarem com suas formas brancas na enorme escuridão do cerrado.

Mansamente, como a me dizer um segredo, JK tomava-me pelo braço: “Niemeyer. Que beleza!”.

_____________________________________


Trechos selecionados do livro As Curvas do tempo, memórias, Niemeyer, Oscar, Editora Revan, RJ, 1998

_____________________________________

Notas

(1) Milton Prates. Aviador da FAB, que servia à equipe de Juscelino Kubitscheck.

(2) Willy Mello, arquiteto em Brasília.

- Paulo Melo, o Paulão, também arquiteto da equipe de Brasília, tocava violão para animar as conversas.

(3) Juca Chaves, construtor, foi também dono do Juca’s Bar, no Rio de Janeiro; em Brasília, dirigiu a construção do Catetinho, como ficou conhecida a primeira residência do presidente da República na futura capital.

- Rochinha, sem profissão definida, vivia de papos e favores em Brasília.

- César Prates, dono de cartório, amigo de JK e gostava de cantar nas reuniões festivas em palácio.

(4) Bené Nunes foi como ficou conhecido Benedito Francisco José de Sousa da Penha Nunes da Silva. Pianista carioca, nasceu no Rio, em 1920. Dirigiu uma grande orquestra e participou de vários filmes, como o Rei do Samba, em 1952.

(5) Dilermano Reis. Violonista e compositor paulista, nasceu em Guaratinguetá em 1919. Atuou na Rádio Nacional do Rio, de 1935 até final da década de 1960. Autor de sucessos como Magoado e Abismo de Rosas. Faleceu no Rio, em 1977.

______________________

Fonte: revista Princípios nº 106