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Cinema: Trumbo – entre o golpe e a hipocrisia

Vandré Fernandes Publicado em 01.04.2016

Alguém já disse que a democracia é muito frágil para acompanhar a hipocrisia. Pois bem, Trumbo é um filme que aborda um tempo sombrio de Hollywood, em que uma chamada “Lista Negra” perseguiu os artistas da sétima arte que eram filiados ou simpatizantes do Partido Comunista dos Estados Unidos da América.

Bryan Cranston brilha em "Trumbo - Lista Negra", filme de Jay Roach

Dalton Trumbo foi um dos roteiristas mais conceituados nos Estados Unidos. Porém, sua militância comunista, no auge da guerra fria, fez com que seu nome caísse em desgraça, encabeçando a lista negra.

Trumbo é proibido de trabalhar e, para sobreviver, ele passa a escrever clandestinamente seus roteiros, chegando a um total de 30 roteiros com pseudônimos. Entre tantos, dois lhe renderam o Oscar de melhor roteiro original com o filme “A Princesa e o Plebeu” e “Arenas Sangrentas”. Além desses, destacam-se “Exodus”, “Spartacus” e “Papillon”.

Os diálogos do filme retratam bem o momento vivido na terra de Tio Sam no período em que eles polarizavam o mundo com a União Soviética. O crescimento do fascismo entre os americanos, do individualismo, o cheque-mate nas instituições políticas, patrulhas ideológicas e o impedimento de democratas e comunistas de conviverem em sociedade.

Quem assiste ao filme, fica com a impressão de que quase 70 anos depois do início da lista negra dos EUA, a chamada caça às bruxas chegou ao Brasil. Um exemplo disso é a lista publicada no blog do jornalista Rodrigo Constantino, onde ele cita uma centena de nomes de artistas que assinam o manifesto pela democracia contra o golpe, e diz para seus leitores não mais seguirem esses artistas, pois são a favor de Lula e Dilma. Uma pérola de hipocrisia, para não dizer idiotice. Claro que comparado à lista dos anos 40 nos EUA, a lista do blogueiro da Veja e outras do tipo são apenas fachadas para o discurso do ódio e da perseguição política.

Se Trumbo recebe um copo d’água na cara na saída de um cinema, a cena nos faz lembrar que andar de camisa vermelha na avenida Paulista é muito perigoso. O discurso da direita brasileira dizendo que o Foro de São Paulo é uma conspiração comunista para tomar de assalto a América Latina, lembra o Congresso Americano que baniu todos os membros do PCA pela mesma tentativa de dominar a América.

Ainda nas comparações, talvez o Juiz Sergio Moro seja o nosso mentor do Macarthismo brasileiro, apurando e perseguindo parlamentares de apenas um campo político, como foi na comissão parlamentar de inquérito da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos formada para averiguar a suposta infiltração de comunistas na indústria de cinema e presidida pelo senador Joseph McCarthy.

Bem, voltando ao filme, mostra que a democracia está sempre ameaçada por uma suposta democracia das elites – Ou como preferir, golpe. Mas o genial Trumbo não desiste dos seus ideais.

Se para os americanos o filme pode ser um recorte da história, talvez para nós brasileiros seja um retrato do atual momento. E o discurso de Trumbo na entrega do prêmio da Associação dos Roteiristas é uma pérola:

“A lista negra foi uma época do mal. E ninguém que sobreviveu a ela, passou ileso pelo mal. Pego numa situação que saiu de controle como meros indivíduos, cada um reage a sua natureza, suas necessidades, convicções, e às circunstancias particulares que o compeliram. Foi um tempo de medo. E ninguém foi eximido. Diversas pessoas perderam suas casas. Suas famílias se desintegraram. E ao final alguns perderam suas vidas. Mas quando você olha para aqueles anos sombrios, como todos deveriam fazer de vez em quando, não vai fazer bem procurar por heróis ou vilões. Não há nenhum. Há apenas vítimas”.

Trumbo é um filme motivador num momento em que forças estranhas preparam um golpe contra a democracia brasileira, que é a grande vítima deste processo. Portanto, sem lista, sem golpe!