Notícias

"Guerrilheiro não tem nome" encerra temporada no Centro Cultural São Paulo

Cezar Xavier Publicado em 19.05.2016

No final de semana de 28 e 29 de maio, será a vez do Centro Cultural São Paulo (CCSP), na região da Liberdade/Paraíso, de receber “Guerrilheiro não tem nome”, uma narrativa que encadeia situações e confrontos para exemplificar os significados profundos da luta juvenil na Guerrilha do Araguaia.

Vanessa Biffon interpreta vários personagens da Guerrilha Foto: Alan Siqueira

A produção, que entrou em cartaz no ano passado, encerra este mês sua temporada nos palcos da capital paulista. No final de semana de 28 e 29 de maio, será a vez do Centro Cultural São Paulo (CCSP), na região da Liberdade/Paraíso, de receber “Guerrilheiro não tem nome”, uma narrativa que encadeia situações e confrontos para exemplificar os significados profundos da luta juvenil na Guerrilha do Araguaia.

O Exército brasileiro empreendeu um esforço brutal para apagar os vestígios daquele conflito e de seus protagonistas, mas não conseguiu apagar o heroísmo daqueles homens e mulheres da mente de camponeses, militares, parentes, amigos e índios. Os militares também não foram capazes de impedir que a poesia eternize aqueles agentes históricos sob a luz da ribalta e os aplausos e emoção das plateias.

A peça nasce sob o signo da perplexidade da juventude atual com a coragem e ousadia daqueles militantes comunistas que deixaram sua vida e abriram mão de futuros tranquilos e bem sucedidos como profissionais liberais de classe média, para seguir para a selvageria da floresta e enfrentar a violência em seu estado absoluto e requintado. O que leva um jovem no auge de suas potencialidades a entregar-se à uma luta tão desigual? Esta é a faísca que cintila da curiosidade de Anderson Zanetti, Airá Fuentes Tacca, Leonardo Oliveira e Vanessa Biffon, do Grupo Mata!, em Guerrilheiro Não Tem Nome.

Programação:

28 de Maio de 2016 –  às 19h – Sábado (Sala Adoniran Barbosa: CCSP - Rua Vergueiro, 1000 - Paraíso, São Paulo - SP, 

Telefone: (11) 3397-4002).

29 de Maio de 2016 – às 18h – Domingo (Sala Adoniran Barbosa: CCSP).

Realização: Prêmio Zé Renato 

 

Três atores para 69 nomes

Tudo feito pela primeira vez, com urgência e coragem, pelo diretor Anderson Zanetti, numa pesquisa e criação coletivas com os atores Leonardo Vieira, Vanessa Biffon, Airá Fuentes Tacca, e o cenógrafo Luiz Felipe Macalé, que compõem o Grupo Teatral Mata! O primeiro trabalho do grupo estreante foi recebido com boas vindas pelo Proac Primeiras Obras (Programa de Ação Cultural de SP), que contemplou-os com treze apresentações, entre São Paulo,  Diadema, Santos e Campinas. Com o 3º Prêmio Zé Renato de apoio à produção e desenvolvimento da atividade teatral para a cidade de São Paulo, a peça volta em nova temporada paulistana de 20 apresentações, entre 12 de março e 29 de maio de 2016, em teatros da capital paulista, em Cidade Tiradentes (ZL), Vila Nova Cachoeirinha (ZN), Barra Funda (Centro), Santo Amaro (ZS), Vila Formosa (ZL) e Liberdade (Centro). (Veja a agenda abaixo).

O texto surgiu da leitura e conversas com os autores Leonêncio Nossa, Romualdo Pessoa e Liniane Haag Brum, que investigaram a fundo a Guerrilha do Araguaia e suas consequências. O objetivo parece ser adentrar o imaginário e ideário dos guerrilheiros, dando a mão à plateia e trilhando simbolicamente a mata densa do Araguaia, para tentar alcançar racional e sensorialmente o desejo profundo daqueles jovens por liberdade e democracia.

A pesquisa estética envolveu a poética brechtiana, a partir de esquetes que se sucedem sem linearidade, mas sempre muito claros e inteligíveis. O debate dialético é uma busca permanente nos confrontos entre personagens e situações. Há confrontos dramatúrgicos contínuos entre camponeses e militares, delatores e guerrilheiros, militantes clandestinos e policiais infiltrados, Major Curió e Comissão da Verdade, José Genoino e Joaquim Barbosa, ou mesmo entre guerrilheiros, sempre debatendo motivações pessoais e destinos históricos. Imagens do cotidiano na cidade e no campo, situações extremas e rituais da vida que se reproduzem de forma inusitada e perigosa nas condições clandestinas da luta armada compõem o escopo de cenas.

Surpreendente observar que cada ator representa pelo menos 15 personagens, trocando de roupa, gênero, cara, voz e gestualidade em cena, recurso que, por si só, dinamiza a movimentação cênica e prende a atenção da plateia. Os saltos entre a guerrilha urbana e rural revelam a claustrofobia daquela geração entre a apatia e a inevitável luta radicalizada. A violência é tratada de forma a evitar o choque no público e a histeria no palco, optando por uma busca poética.

Segundo Zanetti, todas as personagens reais (e vivas) são problematizadas na peça por suas posturas e discursos conhecidos publicamente. Mas o mais admirável é a ausência de neutralidade política, e o modo como a peça aproxima o tema da atualidade. Afinal, os corpos continuam desaparecidos, os criminosos continuam impunes, as famílias das vítimas esperam por respostas, e, mais do que isso, lembra Zanetti, as práticas políticas e intervenções de estado praticadas no período da Guerrilha são praticadas hoje.

“A coragem para dizer as coisas precisa existir, correndo o risco que se tenha de correr. No momento em que, no país se vive uma guerra de informação, a gente não pode esconder a cara, não pode ter medo de ser rotulado; a gente precisa dar nome aos bois e se posicionar”, afirma o diretor, justificando suas opções.