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TV Grabois estreia com ponto de vista comunista dos fatos

Cezar Xavier Publicado em 23.05.2021

A grade de programação começou, na segunda (17), discutindo o investimento tecnológica da China, as conspirações sobre o Foro de São Paulo, o racismo a serviço da desigualdade, onde/quando nasce a era da pós-verdade e o nível de “lasqueira” em que o Brasil mergulhou na última semana. Youtubers explicam em live o que vem por aí.

Primeira semana da TV Grabois discutiu cultura, geopolítica, tecnologia, racismo e notícias sob a perspectiva da militância comunista
Segunda e terça-feira foram dias de estreia e live de inauguração da TV Grabois no Instagram, Facebook e Youtube. Os principais youtubers do canal apresentaram sua contribuição na grade de programação e os temas que pretendem abordar para garantir a atenção da audiência. As transmissões ao vivo trouxeram Manuela D’Ávila, Olivia Santana, Ana Prestes, Dani Balbi, Fábio Palácio e Elias Jabbour. Os responsáveis pelo conteúdo pretendem preencher a lacuna do ponto de vista comunista, marxista e leninista, uma perspectiva frequentemente vista com preconceito e desconhecimento. O objetivo é tirar da gaveta e do silêncio aquelas informações escondidas pela mídia corporativa e a política de direita, por motivos ideológicos. Assuntos que parecem incompreensíveis para o cidadão comum, como a riqueza e modernidade crescente dos chineses, a reunião de partidos de esquerda latino-americanos mostrada como uma conspiração suspeita, o tratamento impaciente com as queixas de minorias sociais e a quantidade borbulhante de notícias falsas e distorcidas que chegam no WhatsApp da família. Na sexta-feira, ainda tem um resumo explicadinho das turbulências políticas da semana.
“Meia noite em Pequim”
Elias Jabbour é o estudioso do fenômeno espetacular que é a China, desfilando seu bloco toda segunda-feira. Ele é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. Conversando com ele sobre a coluna, Manuela D´Ávila lembrou das vezes em que foi para a China e ficou assombrada com o que considerou o lugar mais moderno e desconhecido do mundo, quando se imagina que os EUA estão no topo da tecnologia. Jabbour reafirmou essa impressão ao explica que em sua visita em 2009, à Xangai, uma viagem que durava duas horas entre duas cidades, em 2018 tinha caído para sete minutos, devido aos 40 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade que cobriram o país. Outro dado impressionante para o resto do mundo é que metade das antenas 5 G estão no país asiático, enquanto a maior parte do planeta patina em tecnologia muito inferior de conexão. Ele explicou que as ferrovias de alta velocidade são a base para acabar com a pobreza ao alcançar aldeias remotas com infra-estrutura de mobilidade ambientalmente sustentável e de última geração. Ele salienta que o combate à miséria naquele país não se dá baseado em assistencialismo, mas em ciência, inovação e tecnologia, além de alto investimento em infraestrutura. “50% da população chinesa ocupa 17% do território, por isso o governo está tentando alargar a fronteira de produção de alimentos”, acrescenta. Outro aspecto vantajoso do país governado pelos comunistas é que não há travas institucionais características de países liberais, “para fazer as coisas acontecer”. Ele menciona o lobby do petróleo nos EUA e Brasil, que dificulta a estruturação de uma malha ferroviária poderosa como a chinesa. “A China é o futuro e precisa ser mais estudada”, defendeu. Jabbour ainda avalia que a democracia na China pode ser mais avançada que muitos países ocidentais que a acusam de autoritarismo. “Lá, um deputado é cassado pela base e não por seus pares como no Brasil”, relatou. O programa de desenvolvimento chinês é baseado em salários altos, conforme informa o estudioso. Para isso, ele questiona e ironiza as acusações falsas de que a China sustentaria sua economia gigantesca, de bilhões de trabalhadores, em trabalho escravo. Os salários médios cresceram 200% em dez anos. Para além desse tom apologético, o estudioso diz que vai enfrentar os temas polêmicos do país, como a liberdade de expressão na China. “Vai ser treta e polêmica o tempo inteiro. Vai ter resposta para tudo”, garantiu. Manuela brincou ao dizer que já se fala que a audiência tem sido captada pelo “raio jabbourizador” para entender o socialismo na China. Terças-feiras: “Miramundo”
As convulsões que avançam sobre toda a América Latina, assim como aquelas que se espalham pelo mundo são o tema da socióloga Ana Prestes. A cada grande mobilização de protestos em países vizinhos, somos surpreendidos por explicações truncadas que não dão conta do contexto histórico que leva os países a turbulências que derrubam governos e reinauguram nações. Ouvir Ana é a oportunidade de entender de onde vêem e para onde vão os destinos de países desiguais e atingidos por políticas econômicas selvagens e desconectadas das necessidades da população. Ana é socióloga, mestre e doutora em Ciência Política. Analista Internacional, autora de livros infantis e pesquisadora da história das mulheres brasileiras na política. Ela explica sua atração pelo fonema “mira”, que nomeia sua coluna na TV Grabois: Miramundo. A origem latina aponta para a visão e contemplação do mundo. Mas sua origem também aponta para a vivência na União Soviética em que mir significa mundo e paz. A personagem de literatura infantil em Mirella e o Dia Internacional da Mulher, que ela criou também traz a referência ao fonema. Ana fez mestrado e doutorado com olhar para os Fóruns Sociais Mundiais, além de manter uma militânica de atuacao internacionalista, o que influencia sua disposição de falar sobre o tema no Youtube. “Nossa casa em Moscou era mais frequentada que a embaixada brasileira”, comenta ela, sobre a pleiade de dirigentes comunistas da convivência de seu avô Luis Carlos Prestes, que cercou sua infância e adolescência. “Tenho amigos espalhados pelo mundo todo, mas meu coração latino-americano fala alto”, enfatizou Ana. Depois da maternidade, tem crescido nela a vontade de estudar a participação das mulheres na política, algo que Manuela também identifica em sua trajetória, conforme se interessa cada vez mais por questões de gênero na política. Foi por isso que ela escreveu “Minha valente avó”, sobre Maria Prestes, que conheceu o líder comunista Luis Carlos quando foi sua segurança e acompanhou toda sua trajetória tumultuada. Ela observa que as mulheres de esquerda mergulharam na luta da juventude, como no “Ele Não” (movimento contra a eleição de Bolsonaro) e no “Fora Cunha” (contra o corrupto presidente da Câmara dos Deputados que mobilizou o impeachment da presidenta Dilma). Sobre o primeiro vídeo, ela diz que tenta desmistificar o modo como o Foro de São Paulo se tornou um espantalho da “maldade dos governos de esquerda” que chegaram ao podre na América Latina. Ela lembra como o Foro surge a partir da queda da URSS, expressando o modo como o colapso do socialismo europeu bateu na América Latina. O Foro também enfrentou o neoliberalismo dos anos 1990, “uma agenda política e econômica que o Chile denuncia e derrota, trinta anos depois.” Ao contrário do clima conspiracionista que tentam criar sobre o FSP, Ana ressalta que as reuniões sempre foram públicas e não secretas, com documentos síntese divulgados à imprensa. Foi a partir dessa coordenação que tantos governos de esquerda chegaram ao poder. Ana lembra que Rafael Correia, do Equador, foi o primeiro a prever a “restauração conservadora” que ocorreu recentemente no continente. Agora, o FSP faz a reflexão sobre esses governos para entender como enfrentar isso. Chile e Colômbia são países que revelam e desmascaram com contundência o “casamento da democracia com neoliberalismo” ocorrido por aqui e apontam o caminho de enfrentamento. Quartas-feiras: “Cabeça Feita”
Todo mundo quer likes para o debate sobre feminismo, racismo e juventude periférica. Muitos falam sobre esses assuntos, abusando do excesso de temas e opiniões, nem sempre tendo legitimidade para tratar de temas tão complicados. Pontos de vista personalistas e subjetivos são muito comuns, não fazendo a conexão com a história e o contexto político que fragmentam a sociedade em tantas lutas individuais. A primeira mulher negra deputada na Assembleia Legislativa da Bahia, Olívia Santana (PCdoB), vai fazer a sua parte ao vincular os movimentos negros com a luta socialista, mostrando como a luta racial não pode estar desconectada da luta de classes. Olívia é pedagoga e foi vereadora de Salvador por 10 anos. Ela destaca o “lugar de fala” de quem foi merendeira e faxineira, “servente numa situação muito humilhante”. “Desde os 14 anos, já trabalhava, enquanto sua mãe era doméstica “num padrão de escravidão” em troca de comida e quarto. “Eu quebrei o ciclo na família ao entrar na universidade. Foi uma revolução na vida entrar na UFBA e no movimento estudantil, que é uma universidade paralela para tomada de consciência, depois me filiar ao PCdoB, e fundar o grupo negro da universidade em 1987, quando havia uma grande falta da presença negra na faculdade”, relatou. Foi assim que Olívia contribuiu para a criação de um cursinho para negros para enfrentar o filtro da entrada na universidade. Em 1996 houve o primeiro seminário nacional de negros na universidade, considerado um marco da política de inclusão racial na educação superior. Olívia também esteve em Durbham na 3ª conferência da ONU e primeira contra o racismo e formas conexas de intolerância. Outro enfrentamento foi com a força do PFL/DEM em seu estado, que sempre entrou no Supremo Tribunal Federal (STF) contestando direitos de negros. Ela lembra que eles foram derrotados na luta contra as cotas para negros no STF. Desde 1989, Olívia está no PCdoB e Manuela lembra que viu ela ser hostilizada na própria esquerda política por destacar a questão racial como parte da luta. Com Cabeça Feita, ela pretende dar um salto, não necessaiamente falando sobre si, “mas sobre nós, sobre nossas causas”. Nesse momento, ela observou como as gerações se cruzam quando percebeu que a vereadora de Porto Alegre, Bruna Rodrigues (PCdoB), conta uma história muito parecida com a sua. Olívia quer continuar seu debate no Youtube falando do capitalismo selvagem atual, o avanço da fome, os novos bilionários da pandemia, o trabalho doméstico, o antiracismo e o marxismo. Quinta-feira: “Cultura em Movimento”
O professor de Comunicação da UFMA, Fabio Palácio, é outro estudioso que acompanha com olhar dialético e marxista as transformações culturais que a tecnologia, a comunicação e as mídias têm provocado no mundo. Ele começa tratando de temas candentes como o mundo da pós-verdade, com suas estratégias de desinformação e táticas de disseminação de fake news. O modo como as redes sociais são instrumentalizadas para hegemonizar esse clima de relativismo da realidade e favorecer a ascenção de forças políticas deletérias para a democracia. Esse ambiente ético e epistêmico da pós-verdade, que cobre o mundo da comunicação e da cultura, é exatamete o que combate cada um dos estudiosos que comparece na TV Grabois a cada semana. O próprio Youtube tem um enorme alcance sobre a juventude, mas com muita desinformação e superficialidade. Para Palácio, a crise do marxismo pede um acerto de contas com certos autores em particular no tema da cultura. Ele diz se apoiar nos estudos culturais de Raymond Williams, que estudou como primeiro indicativo de que este mundo não surge das redes sociais, porque a pós-verdade surge antes. Dos cinco programas que ele já gravou, quatro abordam o tema da pós-verdade, explicando, de cara, como surge a pós-verdade e qual seu contexto. Ele procura fazer a relação do tema com redes sociais, que surgem em meio a essa nova paisagem que acabaram catalizando, mas não dando origem. “A gente que tem que dizer o que as redes devem dizer. Youtube serve para transmitir esse conhecinento que está sendo produzido”, afirmou. Palácio ainda defende que a Tv Grabois pode ser incubadora de canais e youtubers. Sexta-feira: “Sexta contragolpe”
Para encerrar a semana, Dani Balbi e a Manuela D’Ávila vão sextar na TV Grabois comentando o que aconteceu de importante na semana. No primeiro programa Manuela começou comentando o 17 de maio, Dia Internacional de Luta contra a Homofobia e Transfobia, que dominou as redes sociais, e a A CPI da Covid que denuncia o descaso do governo com a ciência e o povo brasileiro. Dani é um caso raro de mulher trans negra e periférica, que ocupa lugares de poder negados à maioria da população que vem desse contexto. Dani é doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ, pesquisadora de dramaturgia, teatro e cinema, além de professora de Roteiro da Escola de Comunicação Social da UFRJ. Manuela D’Ávila é jornalista, escritora e mestre em políticas públicas. É presidente do Instituto E Se Fosse Você?, de combate à Fake News. Foi a vereadora, deputada federal, deputada estadual, sendo a mais bem votada em todas as eleições, candidata à vice-presidência da República em 2018 e candidata à prefeita de Porto Alegre em 2020. Dani faz parte desse time muito representativo com trajetórias especiais que encararam o desafio como um estímulo. Ela conta que foi a terceira professora trans de um instituto federal. Destaca que se surpreendeu com o enorme apoio que recebeu dos alunos. Manuela ressaltou o fato de Danielle ter uma visão muito distinta da sua, pelas origens e pelo território que origina Bolsonaro e as milícias. Dani enxerga as milícias como um corpo estranho das polícias para enfrentar a pobreza como uma resposta autoritária do estado, que as favorece em vez de implementar políticas públicas de inclusão.