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Mal das bexigas

Milton Torres Publicado em 20.05.2015

O livro “No fim das terras”, de Milton Torres, dá a impressão de ser o diário de bordo de uma fabulosa viagem marítima. Uma grande seqüência de poemas sobre as raízes históricas de nossa formação. Milton conduz-nos por um Brasil que herdou todas as taras do colonialismo português, e em que a herança arcaica se aninha no cerne do país moderno. (Sergio Paulo Rouanet)

Ilustração por Cezar Xavier, sobre foto de Raimundo Paccó

Mal das bexigas

 

Remelam as águas ao olho morno do sol
na Belém do Grão-Pará,
e a pele confinada estoura deste mal
das bexigas

a cova rasa, a profunda do homem-bom (que é bom
o afazendado). tanta a gente – por espera-
que rasa a do homem rico, ao rés da terra
o peão

apoucam-se os remos apoucam as canoas da coleta e descem as outras vazias
tocam o sino às Mercês a que se vá todo o mal
e faz-se o jejum das carnes e dos bichos de casco, os avoantes
o peixe-boi (a que aleita) e, da fêmea do homem,
o filho do homem.

ao xamã da mestiça foge o branco, inda que é dia, e volta à noite- os corpos
um só, à luz chagada da aurora. ninguém veio vê-los.
ao convento e às casas acendem o lume
as lamparinas de óleo as velas de sebo as de cetina
e queimam-se os pecados neste fumo, os da carne por primeiro
e os do Senhor sem aveça, e nem o mal se não vai

remelam as águas ao olho morno do sol, e todos
e cada qual no seu só, - na Belém do Grão –Pará

anos passados, fiava Marília longo fio
e desigual
que, desigual, o pensar seu ao fuso põe:
áspero o fio, e estranhado a tudo apague
quanto fôra, e lavre Deus sem nenhum douro
outras lavras que não estas; frágil o fio, tão estirado, desfaça-se
passo além, e a mim desfaça de todo o espanto
que em mim tenho; ou forte o fio, tão resistente, do suor e sangue destas minas
estranhando, o mal ao bem reverta e torne em glória
o baraço
e da escarmenta a solta veste, que balouça e enfuna o vento
qual bandeira.

 


Milton Torres  - No Fim das Terras