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balada de um deus embriagado

Carlos Moreira Publicado em 11.03.2014

balada de um deus embriagado

 

no princípio
era o berro
o caos do acaso
pedaço de nada nó de garganta guilhotinada

no precipício de tudo
estava o silêncio semente
de toda palavra
a palma aberta vazio
rindo distribuindo fogo
por todas as bocas

no particípio era a voz
a vez de ser
a fala oblíqua
fálica nada flácida

à fórceps
do querer atômico
das pedras que rolam da dança dos genes
o sorriso banguela dos sóis
plantados no escuro
vaga-luzes de brilho outro forma alguma


os deuses só nasceram depois
muito muito muito mais tarde
quando a sede aumentou a fome gritou na entranha a faca devorou a mão
quando a guerra precisou de senhores
os senhores de paz
e a paz (coitada
rezaram os pés de tudo que há)
cansou de ser palavra e mais nada


os deuses nasceram de todos os cantos

de todas as formas e nomes e dores alegres
vieram em cores
em carnes
asas pedras insetos imensos
cancros abortos invernos
madeiras ferros estrumes topázios ovos de todas as aves


cada um no seu mundo
ruminando infinitos

mas um deles
sem aviso
belo dia sem data
despertou
como se pulasse de um sonho em outro
gritou contra as portas que voaram desfeitas em luz
e chorou
diante do destino de estar eterno e não ser nada além
de além


contra que deus brandir o punho
se deus era ele e supremo porque para ser supremo
havia sido inventado?


havia lido
deuses gostam de livros
que o maior castigo era a eternidade
e nem pecado ele havia cometido
desejo nenhum erro nenhum morte nenhuma nenhuma carne
entre seus dentes sua carne


a eternidade lhe caía sobre os ombros
pedra infinita sem montanha


a tarefa de ser deus se limitava a legislar o tempo
mas alguma coisa lhe dizia
que há muito
o tempo
não mais

existia !

revoltou-se

homem
cansado de ser deus
se fez mulher criança birra de maluco

pintou interrogações por dentro das nuvens
e fez chover


por trezentos tempos
os homens ficaram perguntando inquirindo debatendo

filos
o fando

e sua raiva não passou


então resolveu embriagar-se


e foi fazer de todas as maneiras sua maneira de estar assim

recolheu de todos continentes as canas todas de açúcar

as uvas
de todas as parreiras aprendeu o cauim o álcool de arroz

de batata de madeira de manga de goiaba de laranja de manjericão de amora

arginica cantárida cascas de ovos de ema de águia

chocolates corvos cornos de rinoceronte aspargos

ginseng mel de ostras sangria de estrelas champanhe de

ruínas morangos com laranja vinho verde amarelo

cor-de-fogo-quando-foge olhos de camaleão ponches

de todos os natais mortos açúcares cervejas venenos cevados

brancos tintos secos de mesa e cama


colheu todas as flores pra dar o tom certeiro
mastigou fermentou
bateu ferveu moeu acrescentou ao buquê
o azedume da cicuta
o amargo do curare

e o sangue de todos os tipos de gente

pra ferver no ponto certo o sol de ira do seu cálice

na borda imensa de sua taça
giravam sóis de girassóis
borbulhando galáxias em torno do vermelho vivo


bebeu


bebeu


bebeu

goles coagulados de gula

como se beber fosse só o que importasse e existisse


bebeu com tanto gosto tanta sede tanto trato
que nem se diria ser um deus que estava ali embriagado

quando jogou longe seu corpo vazio
estava repleto de nada
nem se lembrava mais

do que era tempo ser deus essa conversa

de infinito e orações mal-terminadas


estava livre
e livre
se apoiou sobre um quasar
e caminhou sobre seus pés


mudando no giro incerto do seu passo
a desordem do espaço órbitas formando novos pares
a vida escorrendo de sua boca


em gotas


de alegria e liberdade

resolveu inventar enquanto era tempo

(mas que tempo ainda se sustentaria?)
o corpo que lhe coubesse

a vida que lhe bastasse
em que sua carne reinventada
se misturasse ao sonho simples que arrastava

o ser inteiro e só
que sustentasse no colo e no olhar
sua leveza


desceu então
porque não era
de espaço vazio
e de negrume
que ia inventar de embriaguez seu amor


vermelha
rosácea
lâmina vulto esperma pétala folha-de-relva pérola luz apagada vento


foi tecendo de mar
de fruta
de pedra
os olhos
as mãos
a espera

girava gritava gargalhava
caía sorria mergulhava
e soprava entre as mãos
pra fazer da areia branca
a seda
da pele

fez dois pés de vento e plantou em cada um

dez

mil

caminhos

porque não queria amor roubado de si mesmo
e mesmo embriagado como só um deus pode poder

sabia ser amor o que era a liberdade

assim fez
e fez de nada o tudo desse sonho
cada poro pêlo umbigo boca cabelo sexo curvas de acento variado

montes de vênus veias nuas
grandes pequenos
lábios

colos de calor inesperado


e viu que era boa

porque não era perfeito

o amor em pedaços multiplicados ali a sua frente


faltava olhar e viço
fôlego que banhasse seu rosto


em vez de soprar
(chega de barro de vento)
beijou
a sombra de luz que havia inventado


beijo molhado de tudo que era e havia bebido
beijo incerto dado entre astros palavras na altura possível


beijo de deus e de homem
de filho e de pai
beijo de bicho

de homenino entre tardes
que se perderam da memória


enquanto beijava e criava
se sentiu criado e beijado

ele mesmo também inventado pelo ser que inventara


deus completo agora carne
no verbo dessa palavra

abriu os olhos nos olhos que lhe deram os seus

cruzou os dedos com as mãos que criou se criando
e viu no outro rosto o seu rosto diverso

não narciso de fôlego curto
nem lago de sede infinita

ele mesmo outro no espelho de sua fome seu nome dentro do

(silêncio)


amor do fundo à superfície


vestido de sol
e de água não disse seu nome nem nomeou

semelhança

ela que se quisesse se dissesse
livre agora como era
ou nome algum se rotulasse
que amar é ser sem nome

e estar reencontrado


na relva imensa do universo
as duas silhuetas sentaram
longamente olhando
o mar imóvel de tudo


adormeceram
em paz

no mundo
reinventado

deitados na areia do silêncio
assim vivos assim mortos

superestrelados


na paz da paz do amor
sonhado por um deus

embriagado

 

 

Carlos Moreira - fonte : http://carlosmoreira-silencio.blogspot.com.br/