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Sanatan e as maravilhas do paraíso ameaçado

Brasigóis Felício Publicado em 11.08.2010

      Em exposição no Museu de Arte de Goiânia uma mostra retrospectiva de 40 anos de exposição de Sanatan, intitulada “Mergulho visual no Encantado”. Tem sido a exposição mais visitada de quantas o MAG já realizou em sua trajetória – quem a vê deslumbra-se, fica encantado. Exclamações de deslumbre são colocadas no livro de registro, por parte de estudantes, pessoas do povo, e artistas renomados. De fato, ele é um pintor que reeduca a sensibilidade anestesiada devolvendo a quem contempla suas telas o sentido da beleza, o êxtase perante as formas, ritmos e cores da natureza.

      Sanatan não imita ninguém – e ninguém poderia imitá-lo, mesmo querendo, pelo simples fato de que sua técnica apurada não vem só de sua habilidade como pintor, mas de um dom profundo e autêntico, nascido de sua alma, seu espírito criador. Amaury Menezes, um dos artistas que visitaram a exposição, deixou um registro: “Como é bom apreciar as telas de um pintor que sabe pintar”. Palavras que têm peso, vindas de um que também alcançou a maestria em sua arte. Impossível não nos comovermos ante o esplendor e a maravilha de suas telas. Despertam ou exaltam no contemplador o sentido da beleza, o sentimento de reverência a tudo o que vive, o chamado para a comunhão.

      O jornalista e ambientalista Whashington Novaes, assinala, em texto de apresentação do catálogo: “Não é por acaso que Sanatan seja uma pessoa tão apaixonada pelo cerrado, como mais uma vez demonstra a exposição comemorativa de seus 40 anos como artista. Foi num lugar chamado Morro da Baleia, na Chapada dos Veadeiros, que ele teve, há quase quatro décadas, a primeira de suas visões premonitórias, em que viu o rosto do indiano que se tornaria seu mestre. Correu atrás da visão. E após uma série de coincidências, encontrou-se na rodoviária de Brasília com um amigo que lhe recomendou procurar um mestre, na Colômbia. Este, apontando-lhe uma fotografia na parede, disse-lhe para procura-lo num mosteiro á margem do Ganges, na Índia, onde Buda se iluminou. E foi lá que Sanatan deu seqüência à sua formação espiritual, que o levaria a tornar-se também um monge e mestre também”.

      Escrevi no catálogo desta mostra, que para Sanatan, o tipo de artista que faz concessão aos modismos ou à trivialidade do mercado de consumo passa a ser consumido como produto: perde sua identidade como artista. Sendo um peregrino defensor do cerrado, o rico e frágil bioma que vem sendo devastado, para engordar os lucros da insensatez, ele sente que, se a guerra de destruição não for contida, dentro de poucos anos essa riqueza não renovável, herança de milênios, do planeta Gaia, deixará de existir. Magníficas paisagens saem de seus pincéis, com a naturalidade com que a água cristalina brota da fonte. E por retratar o belo da última pátria do cerrado respeitando a sua pureza, ele se torna um artista universal. A paisagem é a sua partitura, ele tem o dom de fazer renascer a sensibilidade anestesiada por um mundo acostumado à feiúra e á brutalidade. E talvez por isto é de urgência urgentíssima abrir os olhos e ver, nas telas de Sanatan, ou em harmonioso convívio, o magnífico cenário deste paraíso ameaçado.



 Brasigóis Felício, é goiano, nasceu em 1950. Poeta, contista, romancista, crítico literário e crítico de arte. Tem 36 livros publicados entre obras de poesia, contos, romances, crônicas e críticas literárias.